—> Comissão da Verdade instalada… E?

No último dia 16, finalmente a presidente instalou a Comissão da Verdade. Já falei sobre ela aqui e continuo achando-a esdrúxula. É inadmissível uma comissão que se pretende séria trabalhar com o período 1946 – 1988. Assim como é inadmissível membros dela quererem apurar violações de direitos humanos possivelmente cometidos pela esquerda armada. Já me cansei de repetir os mesmos argumentos e, para ser sincera, só voltei ao assunto graças ao estímulo da coluna do professor Vladimir Safatle na Folha dessa semana. Não vou me repetir novamente, muito menos parafrasearei o texto (mais uma vez tão bem escrito) dele. Leiam o próprio. [1]

Só chamo a atenção dos mais conservadores para alguns pontos que é preciso levar em consideração, sobretudo por aqueles com o acomodado e confortável discurso legalista:

  1. “ações violentas contra membros do aparato repressivo de um Estado ditatorial e ilegal não são violações dos direitos humanos. São expressões do direito inalienável de resistência.” [2]
  2. Equiparar a violência da resistência civil com a violência sistêmica estatal-militar é, no mínimo, estupidez.
  3. Todos aqueles acusados de crimes de sangue e/ou qualquer outro crime segundo a visão do regime militar já pagaram suas penas sendo presos (quase sempre de maneira irregular), sequestrados, torturados, mortos, desaparecidos e coisas do tipo.

Portanto, façam-me o favor de parar com essa ladainha de “Ó, mas os terroristas mataram não sei quantas pessoas” e tenham coragem de cutucar a própria ferida.

Nunca confiei nessa comissão, muito menos agora depois de ver quem são seus membros e o que alguns deles dizem por aí.

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–> Da descrença na política à continuidade de tudo como está

Eram duas postagens que fazem sentido ser uma só e, provavelmente, se desdobrará em outras mais. Sobre o caos no transporte coletivo paulista, sobre o governo e sua cara de pau, sobre o desrespeito para com a população, sobre a descrença geral desta na política. Acontecimentos de dois dias que fizeram girar meu pensamento… Espero que consiga transpor esse turbilhão de ideias para as linhas desta página.

Comecemos então pelo acidente na linha vermelha do metrô, ocorrido na última quarta-feira, que, segundo o secretário dos transportes, Jurandir Fernandes, tinha chance zero de acontecer. Caro secretário, eu adoraria entender como algo que tem chance zero de acontecer pode se tornar realidade. Nunca fui boa com esse lance de probabilidade, sofria horrores nas provas do colégio, mas, até onde eu sei, se algo que se considerava com probabilidade zero de acontecer acontece é porque alguma coisa tá errada, no caso, a tal conta de probabilidade. E olha que disso eu entendo, errei quase todos os cálculos de probabilidade que já fiz na vida. Mas preciso fazer uma ressalva, pois o caso em questão é bastante peculiar, afinal, envolve elementos como tucanos, governador e seus afins; logo, é preciso levar em conta a boa e velha ladainha governamental. Sem falar que, em se tratando do transporte coletivo da maior cidade do país, as leis da física e matemáticas são todas relativas… Quem pega ônibus ou metrô sabe do que eu tô falando… Aquela coisa de que dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo vira pura balela… Newton, meu querido, venha conhecer São Paulo e suas leis caem quase todas por terra.

Não contente em afrontar a inteligência da população com tal declaração, na mesma fala, o estimado secretário ainda teve a pachorra de dizer que algumas pessoas só haviam se machucado por estarem distraídas. Sim, leitor, ele disse isso, e em público!  É isso mesmo… A culpa por terem se ferido é das próprias pessoas, afinal de contas, quem mandou andar de metrô desatento à probabilidade de acontecer um acidente que tem chance zero de acontecer, não é mesmo? É dessa cara de pau que eu falo… Cara de pau essa que contribui, sobremaneira, para a tal descrença de que falei no início.

Estudando para minha aula de História Contemporânea, me deparei com um excerto que me ajudou a pensar sobre isso. Reproduzo-o aqui para que possamos pensar juntos:

“Ela [a Nação] se habituara insensivelmente a ver nas lutas das câmaras mais exercícios de espírito que discussões sérias e, em tudo o que dividia os diferentes partidos parlamentares – maioria, centro-esquerda ou oposição dinástica -, querelas internas entre filhos de mesma família, que procuravam ludibriar uns aos outros na distribuição da herança comum. Alguns fatos ruidosos de corrupção descobertos ao acaso haviam alertado a nação de que outros escondidos existiriam por toda parte, convencendo-a de que toda a classe governante estava corrompida e inspirando-lhe por essa classe um desprezo tranquilo, o qual era tomado como uma submissão confiante e satisfeita.”

O parágrafo refere-se à França de meados do século XIX e foi extraído do texto de Alexis de Tocqueville, Lembranças de 1848. Sua completa aplicabilidade ao Brasil do século XXI não é mera coincidência. Massacrada há décadas com o atrito político per se entre os grandes partidos que se alternam (ou não) no poder, a população brasileira foi tomada, quase que inteiramente, por uma total descrença no exercício da política. Descrença essa que levou à massificação da ideia de que todo político é igual (leia-se: corrupto, ladrão, desonesto etc.). Se na França do período tratado no texto a sociedade se sublevaria contra isso numa revolução, no Brasil atual, a sociedade prostrada e cansada se acomoda e colabora para a perpetuação dos mesmos partidos e hábitos no poder. É inegável que os dois mandatos de Lula contribuíram e muito para esse quadro. Por mais de uma década ele esperou para chegar à presidência da República e quando o fez, a esperança depositada em sua figura era maior, talvez, do que sua capacidade de correspondê-la. O dia de sua posse é esclarecedor nesse sentido; o delírio das pessoas que viajaram horas, dias, para vê-lo com a faixa verde e amarela. Um verdadeiro delírio das massas que se reconheciam naquele homem simples e proveniente da classe operária e confiaram a ele o timão que faria de toda camada mais pobre, finalmente, sujeito de si mesma. Bem, não foi bem assim. Não seria leviana (ou tucana) ao ponto de ignorar todas as melhorias que seus oito anos trouxeram para parte dessa classe, mas também não posso fechar os olhos aos limites do lulismo, já bem mapeados pelo Professor Vladimir Safatle. [1] O que pretendo é chamar a atenção para o fato de que o PT no poder é muito diferente do PT que surgiu como alternativa para as esquerdas no contexto da redemocratização e que isso, a meu ver, contribuiu para o desencanto de grande parte dos brasileiros.

E esse desencanto se reflete nas urnas. Com a tal ideia de que tanto faz como tanto fez, a maioria da população vota por votar, sem nem mesmo pesquisar previamente sobre a biografia e atuação política anterior dos candidatos. Seu voto é determinado pela campanha realizada na mídia, sobretudo a televisão, e no conhecimento superficial dos candidatos; ou seja, candidatos-celebridade e velhos lobos da politicagem que representam os grandes partidos, financiados aos montes sabe-se lá por quem, levam vantagem sobre aqueles que não preenchem tais requisitos. Não só por isso, mas também, vivemos em São Paulo sob o tucanato. Ao fim do mandato atual de Geraldo Alckmin, serão 20 anos de PSDB no governo do estado, em que se alternaram Mário Covas, José Serra e o atual governador. Já faz algum tempo que me dei conta do quanto tal partido representa bem uma boa parte da sociedade paulista, mas ainda acredito que sua perpetuação se deve em parte, ainda que minoritária, a essa completa descrença de que falei anteriormente.

Em ano de eleições municipais, as primeiras pesquisas para “a cidade que move o país” dão a entristecer… “José Serra (PSDB) lidera as intenções de voto estimuladas, com 31%, seguido por Celso Russomano (PRB), com 16%, Netinho de Paula (PCdoB), com 8%, Soninha Francine (PPS), com 7%, Gabriel Chalita (PMDB), com 6%, Paulinho da Força (PDT), com 5%, Fernando Haddad (PT), com 3%, Carlos Gianazzi [sic] (PSOL), com 1% e Luiz Flavio Borges D’Urso (PTB), com 1%.” [2] É claro que tudo muda ou pode mudar com o início da propaganda eleitoral, mas o quadro é assustador ao mesmo tempo em que confirma o que disse um pouco acima, com a exceção de Haddad, que, mesmo sendo de um grande partido, atingiu apenas a 7ª colocação (acho que tem a ver com o lance do desconhecimento, mas ainda preciso pensar sobre isso).

Como vencer a descrença eu não sei, talvez uma campanha política com menos foco na publicidade e mais no contato e conversa direta com o eleitor. Só sei que sem vencer a descrença não venceremos a cara de pau, o descaso, o desrespeito e a continuidade de tudo como está.

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–> Lei para ricos: mais uma

E hoje entre em vigor em São Paulo mais uma lei para ricos… A tal da lei das sacolas plásticas. A partir de hoje, supermercados não distribuem mais aquelas sacolinhas – de péssima qualidade, por sinal – e para utilizá-las é preciso pagar. O valor pode variar entre R$0,10 e R$0,50, “irrisório” não é mesmo?!

Pela frente, um discurso de preocupação com o meio ambiente, que pega muito bem hoje em dia; por trás, não passa de mais uma lei para ricos. Se a grande preocupação fosse, de fato, o meio ambiente, então que se proibisse definitivamente o uso da sacola plástica. Afinal, aqueles que não têm problemas financeiros podem continuar usando dúzias de sacolas e contribuindo para a poluição do meio ambiente, enquanto aqueles que não têm dinheiro sobrando devem, necessariamente, se adequar à lei.

Ela entra para um hall de leis que contempla, por exemplo, a criminalização do aborto, e que, ainda que neguem, garantem direitos maiores para as classes mais altas da sociedade. Mais um elemento de desigualdade, de afronta à democracia. Mais um elemento que corrobora a não existência de um regime verdadeiramente democrático e pleno em São Paulo e no Brasil.

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