–> Memorial para uma sociedade sem memória

No dia 19.01.2012, pela primeira vez visitei o Memorial da Resistência, na Estação Pinacoteca, localizada na região central de São Paulo, próximo à Luz. Sim, shame on me! Já seria uma vergonha nunca ter visitado o local se eu fosse somente uma historiadora em formação, mas, para piorar a situação, sou pesquisadora do período do regime militar, e o memorial está, portanto, diretamente ligado ao meu objeto de estudo. O fato é que eu nunca tinha ido, por N motivos… Mas ontem eu fui, motivada pela visita à exposição Lugares de Memória (a qual eu recomendo) e, talvez inconscientemente, pela “nova” situação da Luz, constante estado de conflito.
A exposição em si é simples e concisa, mas vale a pena. Tanto para leigos como para historiadores de ofício e profissionais da área de humanas. Não é daquelas exposições suntuosas que arrancam um “oooohhhh” dos visitantes a cada passo que se dá pelo espaço expositivo, mas esse está bem organizado e bem disposto. Falarei sobre a exposição em si depois.
O assunto desse post é o Memorial em si. O que ele significa de fato e qual o significado que a sociedade dá a ele. Primeiramente, é preciso dizer que a Estação Pinacoteca funciona no mesmo prédio onde funcionou o DEOPS/SP – Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo e que, portanto, traz em si marcas da repressão. Repressão esta que, diferentemente do que muitos pensam, é referente não somente aos anos de regime militar, mas também à Ditadura Vargas e até durante períodos democráticos que conviviam (ou convivem?) com repressão e opressão social. O Memorial consiste de sete espaços e alguns corredores. Logo que entramos no Memorial, vemos uma parede falando sobre a proposta do espaço.

Ao seu lado temos uma sala que, numa parede, fala sobre toda a trajetória do prédio desde sua construção até hoje; e, na outra, apresenta um vídeo explicando um pouco sobre o DEOPS. Nessa sala ainda se lê a frase “Enquanto lembramos tudo é possível”, de Elie Wiesel, que esclarece bastante uma das propostas do Memorial, que como o próprio nome diz, se posta como documento e monumento ao mesmo tempo, disposto a manter viva e (re) construir a memória da sociedade brasileira.

No corredor de saída dessa primeira sala lê-se numa parede o título de uma peça que foi encenada no edifício em 1990, creio eu, “Lembrar é resistir”, que reforça o que se leu no interior da sala e o que está implícito e explícito por todo o espaço.
A seguir, há outra sala com duas tevês interativas sobre Controle, Repressão e Resistência; dando ao visitante a possibilidade de esclarecer conceitos e visualizar documentos escritos ou iconográficos. Há também uma estante com referências bibliográficas sobre os assuntos relacionados ao memorial. Dentre os exemplares encontramos, por exemplo, Batismo de Sangue (Frei Betto) e Brasil Nunca Mais (Dom Paulo Evaristo Arns).
No centro da sala vemos uma maquete do prédio quando ainda funcionava como DEOPS/SP. Duas das paredes da sala estão preenchidas com uma linha do tempo extremamente didática e bem organizada, assim como a exposição Lugares de Memória, que mantêm-se trabalhando com a tríade: Controle, Repressão e Reistência.E então, uma parede explicativa “convida” ou instiga o visitante a conhecer as celas do antigo DEOPS/SP.
Seguindo por um corredor estreito, a primeira entrada dá para um microcorredor reservado para o “banho de sol”. Nas paredes lê-se: “Na parte de cima do fim do corredor tinha uma guarita e um guarda com um fuzil. Por isso, não podia demorar em frente ao prédio.”
E “A vinda ao corredor era uma vez por semana […] uma cela de cada vez.”

Então chegamos à primeira cela, que tem em suas paredes descrições do trabalho da equipe museológica da equipe do Memorial e excertos dos depoimentos obtidos de pessoas que ficaram presas no DEOPS/SP. Esta cela funciona como se fosse uma explicação do que se verá a seguir.
Quase frontalmente à primeira cela, há uma saleta que tem, em sua parede frontal, projetadas imagens  diversas relacionadas ao tema do Memorial, acompanhadas por uma sonoplastia que engloba desde canções do período até discursos de governantes. Há também duas pequenas prateleiras com cartazes, jornais e livros. “Do lado de fora deste edifício: outras memórias”, ou seja, a memória do que ocorria para além das paredes claustrofóbicas do DEOPS/SP.
A segunda cela a ser visitada reconstrói fidedignamente uma o que seria uma cela do DEOPS/SP durante o regime militar. Apresenta desde colchões e inscrições nas paredes até uma réplica do banheiro. Tudo como fora descrito pelos depoentes, muito do que foi lido nas paredes da cela anterior.

A sensação é angustiante, a atmosfera é claustrofóbica; senti-me nauseada de imaginar o que já aconteceu naquele espaço e pensar: quantos aqui morreram? Quantos aqui foram arremessados inertes, como sacos de batatas, desacordados após uma séria de tortura? Quantos nem sequer se enquadravam na tal da Lei de Segurança Nacional? Quantos, adultos ou crianças, gritaram aqui?
Seguindo para a última cela, vê-se na parede do corredor uma referência à missa celebrada pelos frades dominicanos, entre eles Frei Tito, enquanto estavam presos no DEOPS/SP. As cenas são do filme Batismo de Sangue, baseado no livro homônimo (já acima referido) de Frei Betto (um desses dominicanos).
Na última cela, assim que entramos, vemos um cravo vermelho sobre um caixote, cena que se explicará ao ouvirmos os depoimentos de vários presos por meio dos fones dispostos para os visitantes. A flor faz referência a um grande ramalhete de cravos enviados pela mãe de uma das presas durante um dos tanto Natais em que pessoas estiveram presas no DEOSP/SP.
O último espaço é um centro de referência, que traz em uma de suas paredes um mapa com a localização de vários sítios de consciência pelo mundo, lugares que lutam pela conscientização e preservação da memória. Há também computadores para consulta a centros virtuais de referência e uma bancada com exemplos de documentos relacionados ao DEOPS/SP. Na parede oposta ao mapa e aos computadores há uma grande foto do que funcionava nessa mesma sala enquanto DEOPS/SP e uma reprodução do arquivo que lá ficava para guardar as fichas dos prisioneiros; e, na parede lateral, há algumas fotos de outros espaços do DEOPS/SP.
O Memorial da Resistência proporciona um encontro com a nossa história recente e dá ao visitante a oportunidade de encontrar-se como ela independente de um grande conhecimento prévio. Dá as ferramentas necessárias para que possamos reviver, reconstruir ou manter viva a memória da repressão e da resistência. E mais do que nunca vejo o quanto isso é necessário. À parte uma Comissão de Verdade, que além de décadas atrasada, é quase nula e esvaziada; nossa memória parece ter apagado os anos massacrantes de violência estatal e repressão política; sem falar na opressão social.
Os acontecimentos recentes, não só na capital paulista, mostram que a sociedade, tomada por seus preconceitos e recalques, é incapaz de compreender o quão perigoso é apoiar e defender a violência partindo do Estado como prática imediata de contenção de conflitos sociais, e demonstra desconhecer o quanto é tênue a linha que diferencia contenção de controle, democracia fajuta de ditadura, diálogo desarticulado de silêncio ou censura.
Estamos emburrecendo a cada dia mais, estamos cada vez mais cegos, mais domados, mais acabrestados (?). É possível perceber isso quando, ao sair da Estação Pinacoteca, damos de cara com a “nova” Luz e suas inúmeras viaturas pululantes… Depois de mais de duas horas lendo e vendo documentos, provas da truculência, do abuso de autoridade, da repressão, da tortura policial-militar, é tenebroso dar de cara com os mesmos agentes dessa repressão.
É mais do que urgente (re) construir nossa memória, pois, do contrário, perderemos o pouco que nos resta de liberdade sem nem ao menos nos darmos conta disso.

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Uma resposta para –> Memorial para uma sociedade sem memória

  1. Pedro Destro disse:

    Ponto final.

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