–> A nós a liberdade

O que é liberdade?

A inspiração do texto e do questionamento é o filme que intitula esse post. Feito em 1931 e dirigido por René Clair, A nous la liberté tem uma proposta muito clara: mostrar que uma sociedade gerida pelo capital tem um estrutura única que se manifesta nos mais diversos ambientes; no filme, prisão, fábrica, escola. Preto e branco, mas falado, esse filme serviu de ponto de partida para Chaplin filmar seu brilhante Tempos Modernos e para quem assistiu aos dois filmes a influência é não só clara como significativa.

O filme inicia com homens trabalhando na confecção de cavalos de madeira, percebe-se que são prisioneiros. Assim como os cavalos que produziram, os homens estão enfileirados, muitos organizados sob a vigilância e os gritos de seus capatazes. A trilha sonora lembra os ruídos de uma fábrica em funcionamento. Numa tentativa de fuga de dois colegas de cela, Louis e Emile, apenas o primeiro consegue deixar a prisão, com a cobertura do segundo. Em “liberdade”, Louis enriquece e torna-se dono de uma fábrica de vitrolas enquanto Emile, preso, enamora-se de uma moça que observa diariamente da janela de sua cela. Desiludido, este tenta enforcar-se, mas seu plano dá errado; ao invés disso, arranca com seu peso a grade da janela por onde escapa depois de aberta. Agora também em “liberdade”, Emile acaba como operário da fábrica onde a moça trabalha, que depois se descobrirá ser a fábrica de Louis. Lá, Emile trabalha da mesma forma que o fazia na prisão: enfileirado, organizado e sob os gritos dos capatazes. A trilha sonora é a mesma, inclusive durante o jantar, que parece ser feito sobre a mesma esteira que agora passa a cesta de pão em vez das matérias-primas da produção. No desenrolar do filme os amigos se reencontram, mas Louis não admite reconhecer Emile em público. Num jantar em sua grande casa, o amigo rico e o amigo operário chocam os demais convidados com atitudes “grosseiras”, inadequadas ao meio social que ali está. Poderia continuar a descrição do filme que levaria mais algumas tantas linhas e, talvez, desinteressasse quem lê o texto, por isso, vou avançar, recomendando que se veja o filme. Chantageado pelos seus “amigos” que descobrem ser ele um fugitivo da polícia, Louis é forçado a retomar sua vida de vagabundo ao lado de seu amigo Emile, que fica desolado com o casamento da tal moça que admirava com o rapaz que ela admirava, também operário da fábrica.

A reflexão que o filme me trouxe foi exatamente o questionamento que iniciou esse texto: o que é liberdade? Hoje costumamos dizer daquele que foi solto que foi posto em liberdade. Mas qual liberdade? Será que somos realmente livres? Será que a pessoa que deixou a cadeia como Louis e Emile é livre? Ou acaba presa às amarras intrínsecas a uma sociedade capitalista que profere um discurso de liberdade grande parte das vezes associado ao trabalho? Qual é a liberdade do trabalho? Numa cena breve, mas extremamente significativa, A nós a liberdade mostra uma escola, de meninos, onde o professor, assumindo um papel de tirano diz algo como: vocês têm que trabalhar, pois o trabalho é a liberdade. Continuo me questionando: que liberdade? O filme é muito claro quanto a isso: ninguém é livre numa sociedade como aquela francesa de 1931. E em nossa sociedade, será que somos livres?

Em todos os ambientes do filme uma hierarquia se faz presente: na prisão, na fábrica, na escola, na família, na sociedade. A hierarquia é necessária a uma sociedade capitalista e limita a liberdade. Num dado momento, ao tio da moça admirada por Emile é ofertado o casamento dela com este; mesmo tendo sido rejeitado pelo senhor outras vezes, Emile agora é bem aceito, pois quem faz a oferta é Louis, o dono da fábrica, o grande burguês, o grande capitalista. O tio negocia, diria tenta vender a sobrinha, desrespeitando o desejo da própria. Aí a hierarquia, aí a desigualdade de uma sociedade patriarcal, gerida pelo capital.

Feito ainda sob os traumas da crise de 1929, já na parte final do filme temos uma cena que mostra, num vendaval, notas e mais notas de dinheiro voando em desordem, acompanhadas por cartolas. É a queda do capital, e com ela, a queda de uma classe social definida única e exclusivamente pela propriedade e pelas posses. Caem estas, cai aquela. Louis é exemplo disso. Depois de enriquecer, continuava a ser a mesma pessoa que esteve na prisão, o que se observa pela postura que tem ao jantar com Emile. Aqui ele se liberta, ou tenta, das amarras sociais, das obrigações de classe, da postura burguesa e se entrega a si mesmo, ao seu eu de verdade. Voltando à cena, vê-se homens desesperados correndo atrás das notas esvoaçantes, desesperados pelo dinheiro, em busca de algo mínimo que possa garantir-lhes um último fôlego.

Diferentemente de uma sociedade aristocrática, em que a nobreza, rica ou pobre, não perde sua condição de classe, pois ela é dada pelo nascimento, numa sociedade burguesa o discurso do trabalho como libertador faz todo o sentido. Por trás dele está uma maneira eficiente de fazer com que o explorado não perceba a exploração, e mais, fique feliz em ser explorado. Pela sua frente, enfia-se na cabeça das pessoas que pelo trabalho elas podem ascender socialmente, passar de proletário a burguês, de operário a dono de fábrica. Discurso que começa nas relações familiares, passa pela escola, chega à fábrica e domina toda e qualquer relação social. Ninguém é livre numa sociedade como essa. Não há liberdade que resista à hierarquia, à exploração, à opressão. Não há liberdade no trabalho.

Termino como comecei: o que é liberdade?

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , . Guardar link permanente.

3 respostas para –> A nós a liberdade

  1. Pedro Destro disse:

    Simples o questionamento né?!

    Lembrei-me de uma frase de um morador das margens do Rio Xingu acerca da construção da Usina: “Democracia é pra quem tem dinheiro”.

    Deu bastante vontade de assistir o filme.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s