–> Território Livre?

Estou eu em casa, curtindo o primeiro domingo de férias e uma leve dor de cabeça provocada pelo resfriado quando minha amiga, Úrsula, me brinda com mais um episódio do clipping semanal da Folha de São Paulo: a polêmica Largo São Francisco. Dois textos. Um de dois doutores franciscanos e outro de um promotor de justiça. Confesso que jamais pensei ler um texto tão bisonho quanto o primeiro que, tendo sido publicado na Folha, não seria escrito por Luiz Felipe Pondé e João Pereira Coutinho. Mas, tal jornal é só mais um exemplo da nossa imprensa e entre Pondés e Coutinhos eis que surgem Kleber Luiz Zanchim e Paulo Doron Rehder de Araújo, os tais doutores.

O assunto é o Largo São Francisco e arredores que, como sabe muito bem todo freqüentador, ainda que sazonal, do centro da cidade, é tomado por moradores de rua. Os rapazes estão muito incomodados com a presença desses moradores que, vejam só, tomam conta do espaço público, fazem sujeira, consomem drogas, intimidam os coitados dos transeuntes classe média e, ainda por cima, têm cães que os defendem. Quanto absurdo!

Mas absurdo maior são essas pessoas que fazem caridade e auxiliam o trabalho do estado fornecendo aos mendigos a única coisa que lhes falta: comida. É, porque, limpeza e segurança o governo mesmo dá: pela manhã com o caminhão, com água de reuso (que informação relevante, não?!), e durante todo o dia com a secretaria de segurança pública. E como é só disso que todo mundo precisa para viver, nada mais claro do que a relação entre essas condições de vida e o gozo completo da vida.

“Para mudar esse quadro, é preciso consciência da sociedade e ação do Estado. A consciência social passa pela reflexão de que doar dinheiro, roupas ou alimentos na rua não ajudará a transformar as pessoas.”, é o que dizem os doutores. Fico pensando que, na verdade, o que ajuda é todos nós irmos dormir em nossas camas quentes e deixar todos os moradores de rua morrerem de frio e fome, pois, dessa forma, eles vão logo para o céu serem recompensados por Deus com o paraíso celeste, não é mesmo? Um dia, um professor me disse: “uma injustiça na terra, para alguns, pode significar uma recompensa na vida celeste; mas uma injustiça na vida terrena sempre será uma injustiça.” Impossível discordar!

Acho ótima também, a lógica que tais autores fazem de que a secretaria de segurança pública significa proteção para esses moradores… Desde quando a PM brasileira protege pobre? Ainda mais a paulista que é racista e higienista, sim senhores!

O que os doutores defendem é que deixemos os moradores de rua à própria sorte para que descubram por si só a excelente assistência oferecida pelos albergues. Quanta bondade! Bem disse Maurício Antonio Ribeiro Lopes, o autor do outro texto: “Os que falam de albergue como solução para o povo em situação de rua mostram desconhecer de tudo um pouco e de um pouco tudo.” Basta uma mínima noção do que é a situação do morador de rua e dos albergues para saber que, não, eles não são a solução.

É óbvio que não venho aqui fazer a defesa do assistencialismo sem fim. Os albergues têm muitos problemas e precisam ser profundamente reestruturados, além de oferecerem um número infinitamente maior de vagas. Mas, da mesma forma, é impensável condenar as pessoas que doam comida, roupas, cobertores, sopa (só na cabeça do infeliz do Kassab é possível proibir isso. É o cúmulo!). Dizer que a culpa por essas pessoas estarem nas ruas é de quem dá comida ou é muita burrice ou é muito cinismo.

O que se vê nitidamente é que os jovens doutores estão desolados com os moradores de rua; mas não porque se comovem com a injustiça social, e sim porque é muito ruim ter que desviar de mendigos durante a caminhada pós-almoço pelo centro. Invocam o Território Livre, mas que seja livre para nós, classe média, universitários, mestres, doutores (e taxistas, claro, para nos conduzirem pelo trânsito da cidade com ar condicionado e sem ninguém nos incomodando). E para terminar, eles dizem que “os demais transeuntes” não caminham mais pelo Território Livre e que os frequentadores (de direito, com o perdão do trocadilho) da SanFran só utilizam a porta dos fundos do prédio; o que é uma grande mentira. Toda vez que passo pela região, ando normalmente pelo largo e já cansei de ver pessoas “normais” entrando e saindo freneticamente pelas portas centrais do prédio da faculdade, sendo eu mesma uma delas nas poucas vezes em que vou lá.

 Deixo o link de um breve texto que escrevi inspirada numa noite pelo centro de São Paulo.

PS.: Não sei se os textos estão disponíveis na íntegra pela internet, mas seguem títulos e autores: 1) KLEBER LUIZ ZANCHIM E PAULO DORON REHDER DE ARAUJO – Os donos do largo de São Francisco; 2) MAURICIO ANTONIO RIBEIRO LOPES – Ao próximo, o largo.

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Uma resposta para –> Território Livre?

  1. Pedro Destro disse:

    Tem uns assuntos que viram polêmica que tem um grau de complexidade bem elevado. Esses, eu entendo virarem polêmica e gerarem tantas discussões e diferentes opiniões, com fortes e contrários argumentos, etc.

    Mas tem uns outros assuntos, como o assunto em questão nesta publicação do blog, que quando se tornam polêmicas, me assustam! Para mim não faz o menor sentido alguns argumentos, algumas posições, ao ponto de me assustar e, em alguns momentos, de me enojar…

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