–> Larroseando

Sem tempo para viver. Palavras deixadas de lado. Repetição, rotina, coisificação, uniformização. Nosso mundo restrito à pobreza: de espírito, de espécie, de experiência. Nosso mundo contemporâneo nos toma a vida, nos suga o saber, ocupa tudo o que temos com seu bolo gigante de informação. Informação goela a baixo. Vomitamos opinião. Tudo dito sem pensar ou refletir. Sentir? Nem pensar! Tornamo-nos máquinas de repetição qual Carlitos em Tempos Modernos. Quase 75 anos depois da obra-prima, não nos contentamos em repetir movimentos físicos. Somo papagaios repetidores de movimento pensantes (ou o contrário disso), opiniões vazias de significado pessoal.

Informação, opinião, informação, opinião, informação, opinião. Periodismo. O que hoje é novo, amanhã é quase velho, ultrapassado, modificado, modernizado. Só a experiência é atemporal. Ela é memória de pensamento ou sentimento. Memória é atemporal e é sua. Sua memória, assim como você lembra é somente sua, ainda que seja coletiva. Sua memória-experiência lhe é peculiar e única. Atemporal, portanto.

É preciso a experiência, é difícil a experiência. Enquanto nos perdemos em meio a tanta informação, abrimos mão do conhecimento, não absorvemos o saber. Esquecemos de experimentar, esquecemos de nos educar. Por falar em Educação…

Cadê a educação? O que se fez, faz ou fará dela? Cuidado, Educação; seu tempo vem chegando. Aos poucos, o corre-corre diário vem penetrando-a, fazendo dela também uma máquina de reprodução, papel carbono da sociedade e suas opiniões. Perde-se a memória, perde-se o coração, perde-se a experiência, perde-se a sensação. E tempo, não tem não. Precisamos trabalhar.

Vamos trabalhar? Sim. É só isso que se faz. Para quê experimentar, se trabalhar é o que vale? Mas trabalhar não é experimentar? Não. Trabalhar é trabalhar; experimentar é viver. O trabalho é condicionado; a experiência, livre. O trabalho pode ser coletivo; a experiência é individual. O trabalho se compra e vende; a experiência somente de adquire.

Com muito trabalho e pouco tempo não nos abrimos a experimentar. Não conseguimos estar passivos nem por um minuto. Em atividade constante e total é quase impossível estarmos dispostos a entregarmo-nos a algo que possa fugir do controle. Há medo, muito medo de nos deixarmos levar pelo subjetivo. Não deixamos que algo nos passe, não deixamos que algo nos toque, não deixamos que algo nos chegue, não deixamos que algo nos suceda. Não conseguimos deixar a experiência atuar sobre nós. Não conseguimos deixar os sentimentos, as sensações, os sentidos livres para que nos façam. Não somos mais capazes de nos expormos. Não expomos o que somos, estamos cercados por uma carapaça, para que, assim, possamos satisfazer as expectativas da sociedade.

Aos poucos, somos feitos de algo duro, não maleável, impenetrável. Talvez aí uma explicação para o vômito de opiniões repetidas. As milhares de informações diárias vêm em nossa direção e sem sequer pensar sobre elas ou absorvê-las em seu mínimo, as rebatemos com nossa dureza em forma de opinião, dita sem qualquer peculiaridade.

Não temos conhecimento. Para as exigências da sociedade contemporânea ele não tem o menor valor. Como já disse, o que vale é trabalhar; não pelo trabalho em si ou o que se pode aprender com ele, mas pelo que ele nos remunera. É em nome dessa mesma sociedade que abdicamos de nossa especificidade de modo que possamos estar adequados. Buscamos adequação constantemente e o medo de não a atingirmos nos oprime, restringe. Se não temos experiência, não temos existência. Somos vazios dela. Vazios de sentimentos, sensações, experimentações. Somos duros, somos ocos. Somos vazios de vida.

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Texto escrito em maio de 2010 para uma atividade do então Curso de formação de Educadores da 29ª Bienal de São Paulo. Estava perdido no caderno que usava para o curso e que achei recentemente.
O título é uma referência a Jorge La Rosa, estudioso das relações entre psicologia e educação, cuja influência no momento do registro dessa reflexão era grande.
Também bastante clara é a influência do pensamento de Walter Benjamin, um dos pensadores que mais admiro.

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Uma resposta para –> Larroseando

  1. Pedro Destro disse:

    Não é à toa que os anos passam cada vez mais rápido…

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