–> Garoto paulistano do terceiro milênio

Mariana Rosell e Pedro Destro

             O garoto, paulistano de classe média do terceiro milênio, refletia mais do que o normal para um menino de sua idade, de sua posição social e de seu tempo. Um dia, buscando explicações em sua mente jovem e experiente (a inteligência não anda conforme o tempo, não é mesmo?!) chegou a uma grande conclusão: partindo do pressuposto de que a natureza é a origem de qualquer coisa que conhecemos, seja ela palpável ou não, grandiosa ou leviana, para entender o que quer que seja, o homem deve conhecê-la.

            Então, o garoto passou a procurar meios para isso. Pouco tempo foi preciso para achar as três maneiras de se fazer o que queria. Devia olhar pro céu, pisar no mato e tomar banho de rio. Não podia olhar pro céu. Os arranha-céus, as antenas, os postes. No terceiro milênio, um garoto paulistano não consegue olhar pro céu. Não podia pisar no mato. As estradas, os edifícios, as construções. No terceiro milênio, um garoto paulistano não consegue pisar no mato. Não podia tomar banho de rio. As indústrias, a impunidade, os ignorantes. No terceiro milênio, um garoto paulistano não consegue tomar banho de rio.

            Um garoto paulistano do terceiro milênio não reconhece nem o céu, nem o mato, nem o rio. A natureza é tão distante, tão inatingível, que passa a fazer parte de um sonho. Quando pensou em tudo isso, o garoto paulistano já deitava em sua cama, mas o turbilhão que passava na sua jovem mente não o deixava descansar. Até que de tanto pensar, adormeceu.

            Em seu sonho, o garoto paulistano vivia entre as cores: azul do céu e do mar, amarelo do sol e das flores, verde das matas e de seus olhos. Em seu sonho, o garoto subia em árvores, cantava com os pássaros, rolava na grama, fazia bonecos de lama. Em seu sonho, ele dançava na chuva sem medo das enchentes, banhava-se no rio com prazer e sem temor, respirava fundo sem tossir ou espirrar. O sonho do garoto tinha cheiro de flor e terra molhada, tinha som de música cantada, tinha gosto de fruta avermelhada. O sonho do garoto tinha copa de árvore de casa, cachoeira de chuveiro, animais de travesseiro.

            Mas uma hora o sonho acabou e o garoto despertou. Ao olhar pela janela, tudo tinha se perdido, tudo era cinza novamente. O ar era muito quente, o céu não mais se via, o cheiro era ruim e o gosto muito amargo. Somente a chuva ainda caía, mas sem grama para bebê-la, carregava em enxurrada o garoto paulistano do terceiro milênio, seus sonhos e sua casa.

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