–> K.

Romance, memória, história ou desabafo. Isso, aquilo ou tudo junto. Assim é o livro K., do jornalista Bernardo Kucinski, lançado em 2011 e cuja leitura fiz a partir da segunda edição, de 2012. Trata-se do relato da busca incessante que o pai do autor, o senhor K., empreende pela filha desaparecida em 1974, durante o regime militar brasileiro.

Ana Rosa Kucinski era professora do Instituto de Química da Universidade de São Paulo, de onde foi demitida por abando de emprego pela Congregação da unidade. Havia ingressado na luta armada e foi sequestrada, torturada e assassinada pelos agentes que, não tenham dúvida, agiam em nome do Estado brasileiro. Seu corpo nunca foi encontrado e seu nome figura na extensa listas de desaparecidos políticos.

“O carteiro nunca saberá que a destinatária não existe; que foi sequestrada, torturada e assassinada pela ditadura militar. Assim como o ignorarão, antes dele, o separador das cartas e todos do seu entorno. O nome no envelope selado e carimbado, como a atestar autenticidade, será o registro tipográfico não de um lapso ou falha do computador, e sim de um mal de Alzheimer nacional. Sim, a permanência do seu nome no rol dos vivos será, paradoxalmente, produto do esquecimento coletivo do rol dos mortos.” – página 17.

A partir do acontecimento que abalou toda a família, o autor reconstroi no limiar entre ficção e realidade, memória e história a luta de seu pai pela recuperação, primeiro da filha, depois do seu corpo. E como o senhor K. de Kafka, a busca incessante parece andar em círculos, não tem final, não tem reencontro e nem notícia. De família judia, o romance recupera também as lembranças de K. da perseguição na Polônia durante a Segunda Guerra.

Em 2012, impulsionado pelo estabelecimento da Comissão Nacional da Verdade, formou-se o grupo Por uma Comissão da Verdade da USP, que, entre outras ações, realizou um ato no IQ-USP em memória de Ana Rosa, reivindicando a revisão de sua demissão e a homenagem de nomear o uma área do instituto Complexo Ana Rosa Kucinski.

Cartaz do Ato realizado em memória de Ana Rosa Kucinski

Cartaz do Ato realizado em memória de Ana Rosa Kucinski
Leitura da carta-manifesto

Leitura da carta-manifesto

Sobre o livro não direi mais. Recomendo a leitura destacando o capítulo em que Kucinski trata da reunião da Congregação do Instituto que, descaradamente, demitiria Ana Rosa. Trata-se de uma bela forma de lidar com esse tipo episódio, ainda que alguns membros tenha repudiado o livro por citar a ata da reunião e os nomes dos envolvidos.

Se há um bom jeito de romancear a história pelo viés da memória, é assim que se faz.

K., de Bernardo Kucinski

K.

B. Kucinski

Expressão Popular

2012

R$ 18

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s