–> Da rua à Globo internacional: panorama do Carnaval?

Se quisesse de fato me atentar ao título, deveria fazer um verdadeiro panorama da “festa popular mais famosa do mundo”. Mas não tô no clima de escrever um texto longo, muito menos um que exija um certo volume de pesquisa. Por isso, vou me basear basicamente na minha memória, recorrendo ao Wikipedia sempre que imaginar estar sendo traída pelo tempo.

Começo tentando manter a honestidade de sempre, dizendo então, que desde que me entendo por gente sou mangueirense. Por influência materna, que, ao longo dos anos, se mostrou acertada. Com o passar do tempo, percebi que não poderia torcer para outra escola. Não só por ser uma das primeiras escolas de samba do país (eu diria tradicionais, mas quatro anos completos de faculdade me fizeram repensar o uso deste termo), mas, sobretudo, pela ligação direta com a música popular brasileira, o surgimento na raiz do morro; por ser o berço de grandes estrelas. Como diria seu samba-enredo em    2010: “Mangueira até parece um céu no chão.”

Bandeira da G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira

Bandeira da G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira

Mas chega de babar-ovo. O assunto nem é minha escola querida. Quero tratar mesmo é dos abusos contra o Carnaval, do controle e domínio que empresas, sobretudo Dona Globo, exercem sobre ele. Transformando uma festa popular em negócio dos bons… Vejamos… Por que raios os desfiles de São Paulo começam tão tarde, fazendo com que, pelo menos, a última escola de cada dia desfile à luz do dia, sendo prejudicada, perdendo o brilho? Ora, por que outro motivo seria senão a necessidade da Rede Globo de transmitir a novela, o Globo Repórter e o Big Brother?!

A verdade é que a Globo é a dona do Carnaval do eixo Rio-São Paulo. Faz o que bem entende, manda, desmanda e, eu arrisco, interfere nos resultados. Ora, do contrário, como seria possível que a escola (que só não é a mais global porque existe a Grande Rio) que anima os “heróis” (que só o são na cabeça de Pedro Bial) do BBB todo ano e que desde 1985 até o início do programa amargava 7 vice-campeonatos e apenas um título, se tornasse a grande vitoriosa a partir de 2003? É claro que o fato de possuir tantos vices mostra que a Beija-Flor de Nilópolis fazia sempre um bom desfile, provavelmente perdendo o título por detalhes. O que motiva o questionamento aqui é o fato de, após frequentar anualmente “a casa mais observada do Brasil”, nunca mais errar em detalhe algum, não cometer outro erro, ser impecável. Obter 6 títulos praticamente seguidos, interrompidos apenas pelo ano de 2006, quando Vila Isabel foi campeã e Beija-Flor amargou o 5º lugar.

Paulo Barros

Paulo Barros

Então, de uns anos para cá, quem se destacou foi a Unidos da Tijuca com as inovações do carnavalesco Paulo Barros. Inovações essas que de fato me agradam, mas das quais estou já me cansando, principalmente por parecer que se tornaram uma espécie de fórmula. Ao falar em Paulo Barros já podemos ter certeza de carros humanos, comissões de frente com truques e pelo menos um carro alegórico com uma estrutura megalomaníaca. No desfile de ontem, por exemplo, tivemos uma comissão de frente com Thors e martelos flutuantes, uma carro alegórico com duendes-cogumelos dançantes e outro com um gigante toboágua, que, a meu ver, dialogava pouquíssimo com o enredo, parecendo estar lá apenas para a equação não ficar sem a variante c.

Mas deixando o comentário do desfile da lado (que, inevitavelmente, será retomando porque serve bem de exemplo do que quero tratar aqui), Paulo Barros entra em questão pois, claramente, tem sido – ou já foi – completamente absorvido, cooptado ou algo do tipo pela Globo. Esta, muito esperta, percebeu que não poderia deixar de ser hegemônica no Carnaval, então, se sua afilhada já via sua majestade ameaçada, bora chamar a usurpador pro café da manhã.

Em 2010 a Tijuca levou o título, merecidíssimo eu digo, com o enredo É SEGREDO e aquela comissão de frente sucesso em que as bailarinas trocavam de roupa em segundos. A escola , na figura de seu carnavalesco, começou, então, a cair nas graças da emissora. Paulo Barros até livro escreveu. Em 2011, novamente a mais querida escola de samba da Globo levou seu sétimo título durante a era BBB. Mas em 2012, novo título para a Tijuca. Daí, em 2013, Paulo Barros vai tomar café na Ana Maria, aparece no Fantástico  (que também exibiu uma reportagem, ou melhor, um daqueles quadros balança-o-coração-da-galera com Neguinho da Beija-Flor) poucas horas antes de seu desfile e vai bater um papo na esquina do samba com a moça da Globo. Mesmo depois de ter tido inúmeros problemas durante o desfile.

Confesso que, apesar de tudo, ainda tenho simpatia por Paulo Barros e de nenhuma maneira queria que a escola tivesse se dado mal. Da mesma forma como sou mangueirense e sempre serei, ainda que ache inadmissível que uma escola como a Estação Primeira venha tratar em 2013 de Cuiabá. Nada contra a cidade em si; o que incomoda é saber que, provavelmente, a escolha do enredo tenha se dado por conta do patrocínio, ignorando outros temas que têm muito mais a ver com a história da escola e ainda não foram à avenida. Como aceitar o desperdício do centenário de Jamelão? Como entender que Cartola tenha ido à Marquês de Sapucaí sempre como mais um, nunca como o grande nome do desfile?

Como permitir que uma emissora e seus milhões de reais possam transformar e comandar uma festa tão característica do Brasil? Como aceitar que patrocínio determine o que será ou não retratado na avenida? Como deixar que o Carnaval se torne um negócio? Como se conformar com a mercantilização da cultura?

FONTE: http://liesa.globo.com/

Vejam bem, até o suporte da LIESA é da Globo!

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