–> Todo carnaval tem seu fim – I – Nenê de Vila Matilde

Durante muito tempo, minha escola em São Paulo foi a Gaviões da Fiel. Sabe como é, via o símbolo do time na avenida e torcia, quase que automaticamente. Cresci e passei a ver a sujeira que são as torcidas organizadas; fiquei sem escola em São Paulo. Simpatizei com a Mocidade por um tempo, pensei em torcer para a Acadêmicos do Tatuapé (ZL, mano!); mas o fato é que até hoje não achei aquela escola, aquela pela qual se torce até sem querer.

Esse ano, no entanto, não tive dúvidas: fui Nenê desde o primeiro momento em que vi o samba-enredo. Primeiro por ser uma das tais escolas tradicionais (não consegui fugir do termo, mas acho que vocês entendem o que eu quero dizer com ele) e estar há um tempo na corda bamba – muito pelo que discuti no texto anterior, de carnavais patrocinados e afins. Segundo pelo enredo; é isso mesmo? Enquanto uns levam temáticas irrelevantes e patrocinadas a Nenê vai falar de lutas libertárias e busca pela igualdade? É claro que vou torcer. Daí, entre essa quase epifania e o desfile pensei que, na verdade, só poderia torcer depois do desfile, afinal, o que mais se tem no mundo, são especialistas em se apropriar de determinados assuntos e transformá-los em seu exato oposto. Pois bem, o desfile foi ótimo. Não fosse pelo uso do tempo passado (“Quando igualdade não havia”), eu diria que seria tudo perfeito (não necessariamente o que hoje se entende por perfeição, mas aquela coisa que até nos erros está fazendo a coisa direito).

O mais “legal” mesmo foi assistir ao desfile com a transmissão da Globo. É uma gracinha ouvir Cléber Machado falando sobre Reforma Agrária, luta por moradia e todas as demais lutas sociais que são reprimidas há séculos com ajuda de pessoas como o Senhor Roberto Marinho! Quem imaginaria que, um dia, a Globo exaltaria a Revolta dos Búzios? Ou melhor, fácil é exaltar a Revolta dos Búzios (que, teoricamente, já não traz ameaça alguma); difícil é dizer no Jornal Nacional que a PM anda por aí exterminando a população preta e pobre… Ainda mais com o tal do Não somos racistas, senhor Ali Kamel, na direção de todo o jornalismo da emissora.

O título, obviamente não veio. A Nenê ficou em 10º lugar, o que não me surpreende. De qualquer forma, é bom saber que ano que vem desfilará no Grupo Especial novamente e que, talvez, seu enredo tenha se realizado na avenida e para além dela. Talvez seja a própria resistência, a própria luta contra a mercantilização do carnaval em tempos de enredos patrocinados.

Bateria de luta?

Bateria de luta?

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