–> Remediando a desigualdade

Certo dia, já faz algum tempo, uma tevê ligada pela manhã no canal errado me levou a conhecer a inspiração para esse texto. Hoje resolvi dividir toda minha indignação e descrença. A análise ficará rasa, mas acho que nos dá a pensar. Pois bem, vocês sabiam que existe um quadro do programa Mais Você, de Ana Maria Braga, intitulado Dia de patroa? Sim, meus caros, não se espantem. É esse mesmo o nome e acontece exatamente o que vocês estão imaginando.

Os bons patrões (como aqueles das novelas de Manoel Carlos) tratam as empregadas como membros da família (como nas novelas do Manoel Carlos), ainda que comam na cozinha e saibam bem o seu devido lugar, além é claro de, eventualmente, usarem um uniforme para que não se esqueçam que, embora sejam quase da família, não o são de fato (como nas novelas do Manoel Carlos). Esse retrato de uma sociedade sem conflitos é a primeira característica do quadro televisivo que consiste na premiação da boa empregada, aquela que, além de fazer tudo, não aceita receber ajuda alguma dos patrões.

Esses bons patrões escrevem uma carta para a produção do programa que resolve presentear a empregada de todo dia com um dia de patroa, no qual ela fará “tudo o que uma patroa faz: comprar, cuidar da beleza e mandar.” Deixando de lado a visão machista do que uma mulher que tem empregada doméstica faz de sua vida, focarei no ponto remediador que esse tipo de ação tem no conflito entre as classes.

Primeiro que a empregada, ao chegar em sua casa, encontra alguém para servi-la. Instigada pela repórter, a empregada-patroa ensina a sua empregada-por-um-dia como e o que fazer em sua casa e é impedida de ajudar a sua companheira de classe no serviço, afinal, “patroa tem que mandar, não fazer”. Depois sai às compras e ao salão de beleza, onde passa o dia todo. Ao retornar, é presenteada com uma refeição preparada por um chef  para ela, a família e alguns amigos. E, pasmem, a empregada-por-um-dia come sentada à mesa com todos. Claro, na mesa de empregada-patroa tem lugar para a empregada-por-um-dia; no final das contas, eles pertencem à mesma classe, sofrem a mesma exploração. A empregada-patroa só o será por um dia.

O que sobra de toda essa pataquada global, é exatamente a mesma groselha das novelas do Manoel Carlos: a ideia de que vivemos em uma sociedade bem ajustada, na qual cada um sabe bem seu lugar e, por isso, tudo está bem como está. No dia seguinte, a empregada-patroa voltou a ser só uma boa empregada e a empregada-por-um-dia da empregada-patroa continuou empregada-por-um-dia de outras pessoas. As duas patroas da empregada-patroa, que tiveram a bondade de abrir mão de sua doméstica para que ela recebesse o que merece (ou seja, um dia de patroa) voltaram a explorar a mão de obra alheia para fazer o básico para a manutenção da ordem de seu dia-a-dia. Tudo segue como antes, tudo está bem como está e a sociedade desigual e injusta se reproduz tranquilamente sob as bênçãos de nós mesmos.

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2 respostas para –> Remediando a desigualdade

  1. Diogo Gomes disse:

    Adorei esse ein! Compartilhando…

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