–> Do futebol e suas políticas

Antes tarde do que nunca! Fui ao Museu do Futebol. O arrependimento bateu assim que desci na Estação Clínicas e lembrei que o museu fica no meio do nada, com um acesso super difícil. Mas, vamos lá; batendo papo com as amigas o tempo e a distância passam. Confesso que já fui com um (ou dois) pé atrás, visto que já tinha ouvido falar meio mal, assim, cheguei lá com parte da crítica que aqui se segue já pronta.

O homem é um ser político, como bem disse Aristóteles. Tudo é político, tudo é política. Não se engane, até sua ida à padaria da esquina é política. Sendo assim, já faz é tempo que me incomodo com o mau e velho discurso do senso comum de que futebol é puro entretenimento, o circo que faz par com o pão. É claro que o é também, mas perder de vista seu lado político além de estupidez e ingenuidade, é bastante perigoso. Isso porque, engolindo essa groselha que nos tentam enfiar goela abaixo, fica mais fácil de uns poucos mandarem e desmandarem como bem entenderem. É conveniente para alguns poucos mais ou menos como é interessante nos empurrar o discurso de que todo político é igual, bandido, ladrão e safado.

Não quero me alongar muito (e isso é demasiado difícil para minha pessoa prolixa), mas o que quero dizer é que acho inadmissível um museu sobre futebol não conter nada de político em seus 4 ou 5 andares! Ou melhor, a própria ausência do que se chama comumente de questões políticas é um exercício político; e dos mais sujos!

Nota-se muito bem, basta ter um pouco de atenção. Pois, vejam só, logo na parede de entrada temos inúmeras fotos, anúncios, flâmulas e coisas do tipo emolduradas e penduradas. Qual não foi meu sentimento ao ver a letra de Pra frente Brasil quase centralizada nessa parede?!!! Interessante, não? Mais interessante ainda porque não se faz nenhuma referência clara aos governos militares no restante do museu. Ora, segue-se pelos andares e se tem a impressão de que, de fato, política e futebol não têm nada a ver.  Patrocínio da Rede Globo e da Fundação Roberto Marinho, minha gente.

Até que se chega a uma sala que escolhi chamar “dos horrores”. Acho que a ideia era fazer uma espécie de cronologia com foco nos anos de Copa do Mundo, mas além da expografia ser péssima, o conteúdo é banal e a intenção ao selecioná-lo suja, muito suja. Ora, além de um cartaz da Revolução Constitucionalista de 1932, tem-se a coragem de colocar foto do General Médici segurando a taça do tri sem nenhum comentário acerca do regime militar. Bem próxima a essa foto, há uma imagem com o slogam “Brasil: Ame-o ou deixe-o”, marca registrada dos anos de chumbo. Outra vez sem nenhum comentário.

No fim, a ideia que o museu transmite é de um esporte apolítico e reforço do senso comum histórico. Ora, como ignorar todo o conteúdo político do jogo entre Inglaterra e Argentina na copa de 86, pouco tempo depois da Guerra das Malvinas? Ou os jogos entre Real Madrid e Barcelona? E as manifestações da torcida do próprio Barcelona que até hoje reivindica um Estado autônomo para os catalães? E a torcida do Al-Ahly, massacrada por manifestar-se contra o governo no contexto da Primavera Árabe?

A única referência claramente política que há em nosso Museu do Futebol está no depoimento de Daniel Piza, que trata de Sócrates. Ali se faz referência à Democracia Corintiana, mas só quem escolhe ouvir essa narração é que ouve falar do assunto. Se nem sobre democracia se fala, quem dirá dizer que João Saldanha foi posto pra fora da seleção pelo general Médici por simpatizar com o comunismo? Ou que Didi Pedalada foi agente da Operação Condor? Ou que “rei” Pelé é X-9 e adora um general?

É fundamental transpormos o senso comum e encararmos o futebol como um espaço amplo e privilegiado de exercício político. Do contrário, jamais seremos capazes de entender o que ocorre com os países e as populações de sedes das Copas do Mundo ou nos meandros da CBF, com José Maria Marin na presidência. É só porque ignoramos a chave política do futebol que pessoas coniventes com a tortura durante o regime militar podem exercer funções como essa!

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