–> O silêncio de Dilma

“… mas neste mundo tudo é possível, imagino que os nossos melhores especialistas em tortura também beijam os filhos quando chegam a casa, e alguns, se calhar, chegam mesmo a chorar no cinema…”

 José Saramago, em Ensaio sobre a lucidez

Saramago e sua forma simples e poética (eu ia dizer “brilhante”, mas, achei melhor mudar o adjetivo) de dizer o essencial.

Poderia dizer que houve um tempo em que se torturou impunemente, com a conivência do Estado; que se matou cidadãos brasileiros e se sequestrou seus familiares… Que pais e mães, filhos e filhas, tios e tias, sobrinhos e sobrinhas e assim por diante, sumiram e que seus corpos nunca foram enterrados… Que familiares choraram seus mortos sem saber se de fato mortos estavam, que velaram corpos que nunca foram vistos. O grande problema é que, na realidade, o tempo passado não é adequado. Não se torturou, se tortura. Os corpos que sumiram nunca foram encontrados e os torturadores nunca foram punidos.

Um belo dia foi eleita no Brasil, uma presidente ex-guerrilheira. Dessas que foram sequestradas e torturadas. Há sempre uma ponta de esperança… Sua condição de mulher e ex-militante da esquerda armada fez pensar que havia, finalmente, chegado a hora do acerto de contas; porque sim, é disso que se trata e é disso que deve se tratar. Não é revanchismo, porque isso parece coisa de briga de criança; não é dar o troco, porque ninguém sugere a sério que se sequestre e torture os torturadores, nem que sequestrem também seus filhos e muito menos que esses sejam arremessados ao chão diante dos olhos de seus pais e sejam também submetidos a sessões de choques, mesmo que não encham nem uma mão para dizer sua idade. O que exigimos aqui é questão de justiça.

Justiça essa que não se faz com Comissão da (Meia) Verdade nem com silêncio presidencial diante de depoimentos que seriam considerados absurdos em qualquer lugar cuja democracia seja, no mínimo, mais ou menos consolidada, ou em lugares cujo acerto de contas não tardou. O silêncio de Dilma diante das declarações do exímio torturador e assassino, declarações essas que não foram dadas num ambiente privado, durante a platica do almoço de domingo, mas sim em sessão pública e oficial da tal comissão, nos mostra, de fato, que o Estado brasileiro ainda não quer olhar para seu passado e dizer que quem violou os direitos humanos deve prestar contas disso. O silêncio de Dilma é grave porque é muito mais que o silêncio de um indivíduo cujos direitos foram violados; também não é o silêncio de mais uma mulher que foi seviciada, humilhada em sua condição humana e de gênero. O silêncio de Dilma é o silêncio do Estado, do governo de um país cuja democracia se sustenta aos trancos e barrancos, muito em virtude de sua habilidade espetacular em botar os panos quentes (ou o cassetete) sobre todo e qualquer conflito social.

O silêncio do Estado, ontem, hoje ou amanhã, permite com que os torturadores continuem beijando os filhos e chorando no cinema; permite com que famílias chorem seus mortos e desaparecidos, com que pais morram sem nunca enterrar os filhos, com que filhos cresçam sem saber dos pais. O silêncio do Estado deixa para lá o inaceitável. O silêncio de Dilma sapateia sobre a História, sobre a democracia, sobre a justiça.

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Uma resposta para –> O silêncio de Dilma

  1. […] havia, finalmente chegado a hora do acerto de contas; porque sim, é disso que se trata […]

    Acerto de contas com a História. Porque fica impossível entender a vida se o que se lê nos livros não condiz minimamente com o que vemos e sentimos à nossa volta.
    Não é justo que além de terem cometido as barbaridades que cometeram, essas pessoas pratiquem mais esse crime, o de manter gravada na nossa História uma infâmia travestida em ato patriótico.
    Torturaram e mataram, e sabemos porque. Seus nomes devem deixar as praças e ruas.

    Mas sinceramente, já não esperava atitude diferente não só da presidente, mas de todas as “brilhantes” estrelinhas que lá estão.
    Essa indignação, essa resposta, deveria vir da base, mas se torna cada vez mais improvável, mais distante, porque, espremidos entre falsas “Histórias” de um lado e cassetetes de outro corremos sem dar ouvidos ao gato que avisa que só o que precisamos, é mudar de direção.

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