–> Entre menções e silêncios: a violência contra escravizados no passado e no presente

Cabe aos vencedores contarem a História. Portanto, coube à elite escravagista contar a história da escravidão. Cabe à classe dominante difundir sua ideologia. Portanto, cabe à elite capitalista reproduzir a história contada. Cabe a nós, historiadores, reverter esse costume; contar o que não se disse, revelar o que se tenta, a todo custo, esconder. Cabe a nós, historiadores, mencionar os interditos.

Em uma excursão didática realizada ao Vale do Paraíba visitei duas fazendas cujos tratamentos da violência perpetrada contra os escravizados são bastante distintos. Ainda assim, ambos têm muito a dizer acerca das formas de se contar a história do período da escravidão, sobretudo no tocante aos métodos e espaços de tortura. Com meios opostos, tanto a Fazenda São Fernando quanto a Fazenda Santa Clara, entre menções e silêncios, constroem uma imagem dos escravizados e seus espaços de violência esvaziada de historicidade e marcada pela violência simbólica do esconderijo ou da superexposição.

Esse texto é uma resumo do trabalho final que apresentei à disciplina História da África e dos Afrodescendentes e intenta aproximar os apontamentos que Michel-Rolph Trouillot (Silecing the past: power and production of History. Boston, Beacon Press, 1995.) faz acerca do silenciamento e esvaziamento da Revolução Haitiana e a experiência nas fazendas São Fernando e Santa Clara. Entende-se, no entanto, que o caso tratado por Trouillot se insere num contexto diverso e seu silenciamento está relacionado, mais do que a questões ideológicas, a questões estruturais da narrativa historiográfica do Ocidente. Portanto, todas as aproximações são feitas de forma experimental e reflexiva. Busca-se um aporte teórico em Trouillot, emprestando dele as observações que nos permitem pensar como se constrói, atualmente, a memória acerca da nossa escravidão.

Pensando a escrita da história da Revolução Haitiana feita fora do Haiti, Trouillot observa duas tendências: 1) as fórmulas de rasura, ou seja, aquelas que “tendem a apagar diretamente o fato da revolução”; e 2) as fórmulas de banalização, ou seja, aquelas que tendem “a esvaziar uma série de eventos singulares de seu conteúdo revolucionário, de modo que a série completa dos fatos, corroída por todos os lados, acabe trivializada.” (TROUILLOT, 2012, p. 21). É possível, portanto, associar as experiências nas fazendas visitadas a essas tendências, sendo que a primeira se liga à Fazenda São Fernando e, a segunda, à Fazenda Santa Clara.

Iniciemos então pela reflexão acerca do silenciamento através do apagamento da São Fernando, propriedade de Ronaldo César Coelho[1]. Este é um excelente representante de nossa elite capitalista, cuja influência se dá econômica e politicamente, uma vez que sua relação com o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) não somente o fez candidato, mas também colaborador atuante na campanha de José Serra à presidência em 2010. Portanto, a forma como se organiza a fazenda está diretamente relacionada a uma forma característica da elite brasileira de enxergar a História e lidar com a memória de acordo com seus interesses e em nome da manutenção do status quo.

O primeiro espaço interno visitado foi, justamente, a antiga senzala, cuja memória da escravidão se faz completamente ausente. Ainda que se mantenham as “janelas” originais e algumas vigas de sustentação do telhado; discurso e arquitetura colaboram para que a violência não se faça presente. Com paredes e assoalhos reformados, o local abriga atualmente uma confortável e luxuosa área de lazer. Equipada, entre outras coisas, com um televisor de tela plana, uma mesa de sinuca, sofás confortáveis e inúmeras obras de arte contemporânea, há nela apenas dois objetos que remontam ao período escravagista: uma charrete e um móvel de sacristia.

Vê-se, porém, que, além de estarem completamente descontextualizados (e eu arrisco dizer que mesmo do ponto de vista estético-decorativo não fazem o menor sentido no local), tais objetos de maneira nenhuma remontam à violência destinada aos escravizados. O local é um amontoado de informações que buscam evitar qualquer reminiscência da dor e do sofrimento dos antigos habitantes daquele espaço. Como se fosse possível, apaga-se dali toda a violência testemunhada por aquelas paredes.

Continuando a visita, somos informados de que a antiga cadeia foi transformada num depósito, tendo sido retirados todos os objetos de tortura lá remanescentes. Além disso, a visita ao local não é permitida. A senzala moderna, cujo espaço estava dividido em cômodos para abrigar os núcleos familiares, foi demolida, tendo restado dela somente a base. No interior da casa-grande, há incontáveis objetos que buscam, de maneira ineficaz, reconstruir o período da opulência cafeeira da fazenda e do próprio Vale do Paraíba fluminense. Encontramos pinturas, mapas, esculturas, vasos, peças de mobiliário, entre outros; originais arrematados em leilões ou réplicas encomendadas sob peso de ouro, que, na prática, atuam mais como objetos da própria ostentação particular do proprietário do que de historicização do lugar.

Acontece que, ainda assim, esvaziados de contexto (ou inseridos num contexto peculiar), tais objetos acabam por construir uma memória do ambiente que corrobora, na verdade, a ideologia de seu atual proprietário. A fazenda recebe grupos constantemente e isso faz com que o discurso sustentado durante as visitas se propague sem maiores questionamentos. Quando o administrador (que também nos guia pelo local) diz, de maneira natural, que a abolição da escravatura foi um problema, o está fazendo sob a ótica dos escravagistas, ou seja, da elite, sobretudo cafeeira, que viu a Lei Áurea como uma das principais causas para a decadência de sua situação econômica e o declínio de seu poderio como um todo. Assistimos ali à reprodução do discurso da elite do século XIX pela elite do século XXI.

Detalhe da colcha Foto: Isabella Amatucci

Detalhe da colcha
Foto: Isabella Amatucci

Como se pode perceber pelo que foi feito da senzala e da cadeia, o interesse do Doutor Ronaldo não é de maneira alguma lembrar as violências perpetradas contra os escravizados naquela propriedade, embora a referência ao trabalho escravo em si não seja um problema. Isso se nota através das muitas gravuras de Jean-Baptiste Debret, utilizadas para a decoração de alguns cômodos, em sua maioria, quartos. Embora o artista francês tenha retratado também cenas de violência e tortura, todas as suas obras selecionadas pelo proprietário retratam exclusivamente o cotidiano do trabalho, colaborando mais uma vez para o apagamento da memória da violência. Da mesma forma o faz a, quase sádica, colcha feita sob encomenda para o quarto principal de hóspedes e a pintura de algumas paredes (feitas, ironicamente, por uma integrante da família real).

Assim, não se vê o sistema escravista em si como um problema, pelo contrário, lida-se com sua memória de maneira natural e saudosista, quase nostálgica, chegando-se até a lamentar seu fim. O que não se pode é lembrar que, como parte sistemática e intrínseca desse modo de produção, havia a violência, cuja possível condenação por um confronto direto poderia macular a imagem que o atual proprietário se esforça para construir de sua fazenda.

Passando para a reflexão acerca da visita à Fazenda Santa Clara, temos a segunda tendência apontada por Trouillot, guardadas as devidas peculiaridades. Somos guiados pela proprietária do local (uma deles, na verdade, uma vez que ela e mais sete irmãos e primos herdaram a fazenda de seu avô, que a adquiriu em 1924) e logo no início é possível perceber que seu discurso é carregado de preconceitos, não só para com os escravizados, mas também para com as mulheres e as pessoas ali presentes, muitas delas, negras.

Marcas de unhadas na parede Foto: Raíssa Monteiro

Marcas de unhadas na parede
Foto: Raíssa Monteiro

Após um preâmbulo bastante desagradável, o primeiro espaço visitado é a masmorra, cujo ambiente está bastante conservado a ponto de guardar ainda, além dos instrumentos utilizados, marcas da violência ali praticada: manchas de sangue e buracos na parede feitos pelos escravizados durante as sessões de tortura. Os comentários feitos por nossa guia são assustadores. Ela refere-se aos escravizados como burros, justificando que estes haviam aceitado a opressão ao qual eram submetidos. No entanto, a porta desse espaço, também conservada, nos mostra o contrário. Feita de madeira de lei e reforçada por chapas de aço em ambos os lados, ainda possui três trancas de ferro entrelaçadas entre si. Excesso de precaução? Ou reforço na segurança para evitar que os escravizados fugissem ou libertassem seus semelhantes submetidos aos castigos?

Além da defesa da aplicação de tortura em dias atuais como meio de “dar jeito no Brasil”, outra ofensa direcionada aos escravizados encheu-nos de indignação. Trata-se da sua referência aos escravizados aleijados pelos castigos quando submetidos ao vira-mundo (predecessor do pau-de-arara), aos quais ela chama de idiotas, em virtude de darem muito lucro aos seus senhores pelo trabalho específico aprendido, como de sapateiro e marceneiro. O que se vê aqui é muito mais do que um ponto de vista ou uma opinião; o que essa mulher propaga em seu discurso é um crime contra os negros, escravizados e descendentes.

Ao longo de toda a visita, se assiste a um discurso reacionário pautado pela superexposição e defesa da violência. Nota-se bem as marcas do discurso comum à elite decadente que introjeta seu rancor e o devolve à sociedade através da defesa da violência como forma de mediação das relações entre Estado e sociedade, no presente, e entre senhor e escravo, no passado. Daí que, para a senhora, os métodos de controle e repressão utilizados ao longo do sistema escravista sejam a solução para todos os problemas sociais de hoje, embora, lamentavelmente, não possam ser utilizados porque “ah, tem os Direitos Humanos”.

Até aqui, temos relatos do choque gerado por sua fala. Mas então, como a superexposição dessa violência poderia banalizar? Pois bem. Quando chegamos à fazenda, tivemos que esperar durante algum tempo enquanto outro grupo fazia a visita. A julgar pela reação de seus integrantes ao final da visita, jamais se poderia imaginar o que iríamos ouvir. Entre risos e conversas, os jovens estudantes corroboram o fato de que assistimos no Brasil já há alguns anos, um crescimento do conservadorismo, ou pelo menos de sua livre manifestação.

Nesse contexto, o discurso da proprietária de Santa Clara mais contempla do que choca. Há uma defesa da violência como principal mediação entre Estado e sociedade e uma apologia à restrição dos direitos – civis, políticos e humanos – das pessoas consideradas não merecedoras deles. Assim, com a difusão desse pensamento, não é de se estranhar (embora nos deva assustar) que jovens, estudantes e também muitos outros “tipos” sociais não só concordem como aplaudam pessoas que defendam idéias como o uso de tortura, a restrição dos Direitos Humanos e o ato de bater nos trabalhadores para que façam um bom serviço[2].

Vemos aqui, então, que a superexposição da/à violência num contexto em que há um predomínio de um discurso que a entende como a melhor forma de garantir a ordem, acaba por banalizá-la, na medida em que seu uso irrestrito e desmedido, na verdade, é visto como prática cotidiana para a manutenção da “tranqüilidade” dos cidadãos de bem. O discurso é bem aceito porque contempla, satisfaz e regozija. A reflexão está ausente e a violência, banalizada.

No passado, a arquitetura das fazendas era pensada para se evitar ao máximo o “convívio” entre senhores e escravos. Os espaços de deleite da família, por exemplo, geralmente se localizavam no interior da casa-grande e estavam voltados para um jardim ou uma fonte, sendo que, quando muito, apenas um ou outro escravo doméstico poderia passar por ali para atender às demandas dos senhores. Entradas separadas e corredores diferentes também funcionavam para garantir que a família não precisasse cruzar com seus escravos.

Aqui, temos características arquitetônicas do passado que buscavam, assim como na Fazenda São Fernando, apagar a violência da escravidão através da ignorância de sua existência. Isso se faz, no entanto, através do uso da violência simbólica, que é apartar os reais trabalhadores do cotidiano do local, podendo entrar na casa-grande apenas os rendimentos do trabalho realizado, nunca quem o realizou. A violência simbólica permanece no presente pela tentativa de apagamento da violência física perpetrada no passado e pela reprodução de um discurso racista e saudosista do sistema escravista.

Na Fazenda Santa Clara, a masmorra localiza-se diretamente abaixo da sala de jantar, cujo piso de madeira com imperfeição na junção das tábuas certamente permitia a passagem dos sons de dor e lamento dos escravos sob tortura. É absurdo pensarmos que as famílias senhoriais criavam seus filhos ao som de gritos e gemidos, mas trata-se da melhor forma de acostumar as crianças às violências diárias que já faziam parte de seu dia-a-dia e pelas quais seriam um dia responsáveis. Aqui, temos um exemplo arquitetônico que visa banalizar a violência da escravidão por meio da superexposição a ela desde a infância, ainda que escravos e família continuem sem se cruzar fisicamente no cotidiano.

Assim, os discursos com os quais tomamos contatos nessas duas visitas reproduzem no presente, cada um a sua maneira, o discurso ideológico das elites escravocratas do passado. Seja entendendo a abolição como um problema ou a causadora da decadência do vale, seja sustentando a violência como melhor forma de sociabilização e mediação entre Estado e sociedade.

Passado e presente se entrelaçam na construção de um discurso que busca esvaziar o sistema escravista de sua violência e os escravos de sua atuação enquanto agentes sociais. A arquitetura do passado e os discursos do presente atuam para garantir que as elites continuem a dar o tom dos acontecimentos e a contarem a História como bem lhes aprouver. Seja contrariando fontes, seja apagando-as; os senhores de hoje continuam a perpetuar a violência contra os escravizados e também a dirigem a seus descendentes, mesmo que simbolicamente.

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[1] Durante a visita interna, não nos foi permitido fotografar. Daí a ausência de fotos dos espaços citados. De uma certa forma, a não presença de fotos reforça, quase que ironicamente, o silenciamento produzido nestes mesmos espaços.

[2] Em algum momento da visita, a proprietária comparava a “qualidade” do serviço realizado por engenheiros livres e por escravos. Alegando que uma casinha, construída pelos engenheiros, já havia necessitado ser reparada inúmeras vezes enquanto a casa-grande, construída por escravos, mantinha-se bastante conservada, ela sugeriu que tal situação se deu porque “os engenheiros não apanharam”.

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