–> Inversão

Na quinta-feira última, dia seguinte a um grande ato contra os abusos e desmandos do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, o Leblon, bairro nobre da cidade maravilhosa foi tomado. A quantidade de pessoas em si não entra muito no mérito da questão; se eram 300, 600 ou 1000 (todos números que eu vi e ouvi por aí) tanto faz. O que me faz escrever sobre o ocorrido é menos a manifestação em si – embora sua relevância não esteja em nenhum momento sendo posta em questão – do que o tratamento que lhe foi dispensado pela mídia. Na verdade, um tratamento em especial, já que foi o único que pude acompanhar do início ao fim e com a atenção suficiente para poder comentá-lo.

Trata-se da reportagem (sic) veiculada pelo Jornal Hoje; JH para os íntimos, Jornal Nojo aqui em casa. Fiquei admirada com o leque de termos utilizados para tratar os manifestantes, em especial um grupo de rostos cobertos (sim, isso é sempre enfatizado pela mídia, afinal, “quem não deve não teme”, “quem vai para a rua se manifestar não cobre o rosto” e “gente de bem anda de cara limpa”, como o senhor Cabral, por exemplo): baderneiros, vândalos, arruaceiros, marginais, etc. Não que isso me espante; mas eu achei que, de tão clichês, tais termos teriam sido deixados de lado. Até porque, após as primeiras manifestações de junho, foram incansáveis as iniciativas de tantas pessoas que explicaram a origem destes termos. Não vou repeti-los; não precisa muito esforço para conhecê-la.

Ora, os tais “vândalos”, “baderneiros”, “arruaceiros”, “marginais” saíram pelas ruas do Leblon e, depois, de Ipanema, barbarizando geral. Colocando fogo em lixo no meio da rua, saqueando, vejam só, lojas de gente inocente; os inocentes do Leblon. O horror! O horror! O puro retrato da barbárie ali, diante de nossos olhos. Não, eu não acho que essa seja a melhor forma de luta, não é a minha opção; mas eu a compreendo e a respeito. Nem a intenção aqui é julgar se estão certos ou errados. O ponto aqui é outro. O tom de voz indignado de Evaristo Costa e as lágrimas e soluços do empresário, dono da rede de lojas cuja filial foi saqueada, restando apenas quatro bermudas na vitrine (confesso que me intriga saber o que fez com que aquelas quatro bermudas sobrevivessem ao caos) conferiam especial aspecto dramalhão ao que se via.

Nas redes sociais, em especial o Facebook, vi gente indignada: indignada com o saque, com a barbárie, com os focos de incêndio (leia-se, barricadas de lixo no meio da rua, aquele lugar cercado apenas por ar onde muita coisa pode pegar fogo, sabe?), com os tais terroristas em treinamento atirando bombas caseiras na PM com estilingues. A coitada da PM, desprotegida e encurralada foi forçada a revidar com bombas de efeito moral e gás lacrimogênio, gás de pimenta e balas de borracha (depois da inesquecível quinta-feira, 13 de junho, em São Paulo, bastante gente tá ligada na maneira como a PM atua na hora de reprimir, certo?). A pobre coitada e inexperiente PM carioca. A mesma que mata preto e pobre todos os dias nas favelas “pacificadas”. A mesma PM que chacinou, há 20 anos, crianças moradoras de rua na Candelária. A mesma PM que há pouco, matou 10 jovens no Complexo da Maré.

E aqui chegamos ao ponto causador da indignação oposta, compartilhada por mim e mais tantas pessoas nas redes sociais: por que, afinal de contas, o ataque civil aos manequins do Leblon indignam mais do que o ataque estatal aos moradores da Maré? Por que bonecos de plástico do bairro nobre são mais importantes que gente de carne e osso dos morros? Por que o direito à propriedade privada de coisas tem prioridade de resguardo em relação ao direito à vida dos cidadãos?

Marx diz que quanto mais se valoriza as coisas, menos se valoriza as pessoas. Quanto mais as coisas adquirem vida, menos a tem as pessoas. Quanto mais fetiche têm as coisas, mais reificadas estão as pessoas. As tentativas no meio acadêmico de se pensar e refletir sobre a atualidade de Marx são infinitas; já perdi as contas de quantas vezes participei de seminários, cursos e conferências que tinham esse objetivo. O que vimos acontecer no tratamento midiático do episódio dessa semana mostra bem como o barbudinho é mais do que atual, necessário. Uma das partes mais importantes de sua teoria responde, na medida, à questão que circulou por aí, na “boca” dos indignados com a total inversão da sociedade.

Bonecos valem mais que gente porque vivemos numa sociedade reificada, na qual todas as relações estão mediadas pelas coisas, que tomam nossa vida; enfeitiçadas, nos coisificam. A bermuda de marca vale mais do que o morador de favela assassinado ou o imigrante escravizado que a costurou. O seu Ipod vale mais do que você que o comprou ou o chinês que se suicidou após 16 horas diárias de trabalho semi-escravo para produzi-lo. E a grande questão não é o Ipod ou a bermuda; a grande questão é que não existe saída dentro de um sistema que sobrevive dessa inversão e promove a reificação.

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