–> Observações sobre a peça “Retrato Calado”

No sábado último fui ao SESC Belenzinho (perto de casa!) assistir à penúltima apresentação da residência artística baseada no livro Retrato Calado, de Luiz Roberto Salinas Fortes, que relata sua experiência de prisão e tortura sob os anos de chumbo do regime militar brasileiro. Trata-se de uma residência artística, uma experimentação, como nos alerta o diretor, José Fernando de Azevedo. Mas é uma experimentação falha, como não poderia deixar de ser, visto que sua intenção é irrealizável na origem. O espetáculo é construído através do uso de diversos recursos não só, mas, sobretudo, tecnológicos – efeitos sonoros e visuais – que intentam reproduzir no espectador a angústia vivida pelo professor de Filosofia da USP e tantos outros que foram submetidos às mais violentas humilhações pelo Estado brasileiro governado pelos militares.

A fala rápida e de difícil compreensão é praticamente impossível de ser assimilada e, aliada ao bombardeamento de informações, imagens e sons; de fato, causa uma angústia em quem assiste. Fechado numa sala escura, cuja paisagem da janela vemos sumir pouco antes do início da apresentação, no público experimenta um mal estar; mas em nada tal sensação pode ser considerada semelhante ao que sentiam os presos, ou melhor, sequestrados do Estado. Ora, é verdade que eu estava no escuro, sem conseguir compreender o que diziam, sem saber o que ocorreria no momento seguinte, pensando que a qualquer momento um ruído estrondoso me abalaria a tranquilidade natural. Mas isso em nada se parece com o sentimento de inexistência e a insegurança de ter como única certeza a ausência de limites do outro lado da grade que lhe protege dos maus tratos e da violação de seus direitos.

Há certas coisas que não podem ser reproduzidas e, normalmente, são estas coisas que, paradoxalmente, não devem jamais ser esquecidas. Da mesma maneira que é impossível saber o que foi (sobre)viver em Auschwitz[1] ou em qualquer outro campo de concentração, nazista ou não; não se pode, de maneira alguma, saber como foi (sobre)viver no DOPS, no DOI-Codi ou nos porões da OBAN. Mas ainda assim, da mesma maneira que não se pode deixar esquecer ou esvaziar o que foi o nazi-fascismo ou o stalinismo, não se pode deixar esquecer ou esvaziar o que foram as ditaduras militares, do Brasil e do Cone Sul como um todo.

A dificuldade em lidar com a memória e o trauma dos sobreviventes e a honesta intenção de tocar as pessoas com as importantes lembranças de tais acontecimentos podem trazer resultados bastante diversos. Acho que ouvir os sobreviventes que conseguem falar sobre suas experiências é bastante válido e necessário, mas acho, mais do que ineficaz, perigosa, a tentativa de chocar o público através de manifestações (artísticas ou não) cujo principal objetivo é promover uma experiência incapaz de ser reproduzida. É ineficaz porque, como já disse várias vezes, a experiência da tortura não pode ser vivida por quem não foi torturado. É perigosa, pois pode gerar a falsa sensação de “saber como é”.

Daí que eu discorde da crítica publicada no início do mês na Folha Ilustrada. “Assim, o sofrimento físico e psicológico é traduzido numa experiência sensorial que faz o público experimentar o terror da tortura.” Não! Ninguém ali experimenta o terror da tortura. E isso ficou bastante claro quando, chamados a relatarem como foi sua vida em 1974, nenhum dos muitos senhores e senhoras de cabelos brancos tenha se manifestado. Se alguém daquela plateia foi preso ou torturado, provavelmente não se manifestou pelo trauma que cala ou pela certeza de que nada do que havia sido feito no palco era capaz de mostrar aos outros que ali estavam o que se sente quando está na mesma situação que Salinas. Nos outros, que não foram presos e torturados, provavelmente triunfou a lembrança do que faziam e do que acontecia naquele ano, que também em nada se parece com o que viram no palco ou com o que viveram as vítimas da violência do Estado.

É fundamental gritarmos que jamais esqueceremos. Da mesma forma, é central termos consciência de que jamais conseguiremos reproduzir o que foi o regime militar brasileiro.

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