–> Sem recalque, sem doutrinação

Não bastasse lançar três guias politicamente incorretos da História de algum lugar, Leandro Narloch resolveu aproveitar a lembrança de 40 anos do golpe militar no Chile para fazer um teaser de seu capítulo sobre Salvador Allende, na Folha de São Paulo. Um aperitivo de sua “brilhante” descoberta histórica. Uma obra prima da estupidez nacional (mas não só). A Academia se divide entre o embasbacamento, a revolta e o deixa-pra-lá; e, enquanto isso, as mentiras contadas pelo jornalista (juro que não carrego mais daquele ódio pela categoria) vão sendo difundidas e divulgadas como a mais nova releitura sobre os acontecimentos não só na América Latina, como no Brasil e, mais recentemente, também no mundo.

Embora repetidas, as críticas, muitas e muitas vezes, aqueles que se levantam contra a “obra” do rapaz são frequentemente acusados de invejosos, já que historiadores vendem muito pouco (à exceção de Eric Hobsbawm, a quem peço desculpas postumamente por tê-lo citado num texto sobre Narloch), ainda mais quando comparados aos guias politicamente incorretos. A grande questão é: como fazer com que as pessoas entendam que as críticas a Narloch (e cia) não se dão por recalque ou por doutrinação ideológica. Mas sim em virtude do completo abandono do princípio básico para qualquer historiador (e também jornalista) que consiste em analisar, verificar e confrontar suas fontes, de modo que não se construa uma narrativa baseada em equívocos ou incompleta. Façamos de conta que ele errou; e não que ele, escondido sob a acusação de que os historiadores manipulam fontes para transformar todas as pessoas em marxistas saguinárias, escreve norteado também por uma ideologia.

Não sei o que me deixa mais incomodada, se o cinismo de Narloch ou o descaso acadêmico. Fechada de tal maneira entre seus muros de conhecimento, arrogância e privilégio, a Academia se recusa a ocupar os espaços necessários e em disputa e a satisfazer a enorme (e crescente) demanda por conhecimento histórico. Um grande salve para os poucos que compreendem que sem dialogar com a sociedade, de nada serve a produção acadêmica. Aqui o texto escrito pela professora Maria Lígia Coelho Prado à época do lançamento do guia sobre a América Latina. Ela esclarece com muito mais propriedade as questões acerca do capítulo sobre Allende. Outro texto divulgado à época foi o de Sylvia Colombo, cuja leitura também é interessante.

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s