–> “12 anos de escravidão” (2013)

Demorou, mas finalmente consegui escrever sobre o filme 12 anos de escravidão. Foi preciso quase um mês de reflexão, discussão e inquietamento para que eu pudesse, enfim, começar a organizar as minhas impressões. Confesso, contudo, que foi preciso uma aula sobre o neo-realismo italiano para que eu apreendesse conceitualmente o que tanto me perturbou no longa vencedor do Oscar 2014. Vamos lá!

Apesar de considerar o filme de Steve McQueen fundamental e reconhecer que ele é importante tanto para a mudança na forma como a escravidão é representada no suporte audiovisual no Brasil (tchau tchau novela das seis), quanto para instigar o debate sobre o sistema escravista, sua história, sua memória e sua representação; preciso dizer que, feito o balanço, tenho mais críticas do que elogios a fazer.

Os papeis sociais estão, até certo ponto, bem representados: o negro livre, o branco pobre, o branco rico e senhor de escravos, o branco que aceita conviver com negros livres, o escravo de companhia que almeja a liberdade. Contudo, a vilanização de um único casal de senhores e de um feitor, indispensável num filme do gênero melodramático, propagam a ideia de que estes são maus por essência, quase uma exceção numa sociedade composta por senhores “decentes”, como Solomon (Chiwetel Ejiofor) qualifica seu primeiro dono.

A despeito dos inúmeros acontecimentos previsíveis, também em função da forma do melodrama (quem não sabia que o neto teria o nome do avô?), não pretendo cair matando no gênero em si. Até porque, eu até gosto de um bom chororô, mas é preciso debater. Em tempo, eu sei que o filme foi baseado num livro autobiográfico e que, provavelmente, o neto de fato foi batizado em homenagem ao avô, mas, convenhamos, é a mão do diretor/editor que faz com que todos saibamos disso com minutos de antecedência.

O mesmo vale para a redenção final, que vem, assim como a desgraça, exclusivamente, por mãos brancas: o trabalhador canadense, o antigo “amigo” e o juiz, que promovem a primeira, e os sequestradores, os negociadores, o feitor e o senhor, que são agentes da segunda. Ora, aqui aponta-se bem que o jogo invisível é comandado pelos brancos; mas, a meu ver, corre-se o risco de negligenciar a agência negra-escrava.

Entendo o filme como naturalista, descritor da realidade de modo que se pretende fiel, mas que se faz exclusivamente, pelo que se vê, ligando-se, necessariamente, à afirmação das convenções de gênero, no caso aqui tratado, o melodrama. Ainda nesse sentido, há um apelo ao sensorial, fortalecido por cenas impactantes, como as do chicoteamento de Patsey (Lupita Nyong’o). Portanto, por mais real que pareça (e talvez até seja), o filme não é realista, na medida em que os filmes relacionados a essa escola procuram retratar a realidade desde aquilo que não se mostra, não se percebe, mas que, no limite, é o que a regula.

Pensemos no caso de Machado de Assis, que foi considerado a sua época alienado por não retratar escravos em seus livros. Posteriormente, reconheceu-se que sua obra não era alienada, mas sim, que havia captado o jogo interdito que determinava a sociedade em que estava inserida. Daí ser classificada como expoente do Realismo literário.

Em 12 anos o que temos é a hiper-explicitação do visível, do plenamente perceptível e chocante, sem, no entanto, provocar a reflexão sobre a dinâmica oculta da sociedade e do sistema escravista. Temos a representação de um mundo dividido entre o Bem e o Mal, herois e vilões; permeados por aqueles que querem ser bons mas se prostram passivos diante de um sistema dominado por pessoas malvadas. Dessa maneira, constroi-se uma atmosfera em que a violência, constituinte e constituidora das sociedades escravocratas, é reduzida a uma questão de opção pessoal, submetida à moral individual do senhor de escravos.

Reitero que acho importante assistir ao filme. E se o seu grande mérito é atuar como estopim do debate, que ele seja feito e refeito. Para isso, é preciso ultrapassar a barreira da empatia imediata promovida pelo melodrama e, a partir de um distanciamento crítico, buscar compreender o que o filme dá a ver sobre o contexto que retrata e o sobre o contexto que o produziu.

12 anos de escravidão

Direção: Steve McQueen

Roteiro: John Ridley

Elenco: Chiwetel Ejiofor, Lupita Nyong’o, Michael Fassbender

País: Estados Unidos, Reino Unido

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s