–> Crônica de sua morte anunciada

Em 2010, quando José Saramago faleceu, fui pega de surpresa e quase desprevenida. Foi horrível. Assim que eu decidi que iria começar a me preparar com antecedência para a morte de pessoas queridas, de modo a evitar essa sensação de vazio que dá na gente quando aqueles que admiramos se vão. Já faz certo tempo que eu dizia para mim mesma que a hora do Gabo tava chegando… Câncer, sabem como é… 80 e tantos anos, sabem como é… Nos últimos dias, definitivamente, a gente já sabia… Gabo tava a ponto de se livrar desse mundo cão. E de nada adiantou… O vazio é o mesmo e a tristeza também.

Tardei a tomar contato com a obra de García Márquez e hoje, depois de já ter lido muitos de seus livros, percebo quanto tempo eu perdi lendo Iracema enquanto podia estar lendo Do amor e outros demônios… Mentira! Eu não li Iracema, é chato demais. Mas enfim… Desde as primeiras páginas de O amor nos tempos do cólera, o primeiro livro de Gabo que li, percebi que comecei tarde, como se a vida toda não fosse suficiente para ler e reler seus livros, como se ele fosse escrever pra sempre. Mas não ia e eu sempre soube. Todos nós sempre sabemos.

Pois nascemos para morrer e a vida é só uma intermitência na tranquilidade de não viver e de não se dar conta. Porque gente que vale a pena, enquanto vive, não para de se dar conta e ao dar-se conta da vida, sua e dos outros, externa tudo isso; cada um a sua maneira, cada qual a sua forma. Quando o talento é tanto e quase tudo, tem gente que escreve. Ainda bem que um dia deu certo a publicação de A revoada (O enterro do diabo); ainda bem que um dia dona Mercedes conseguiu enviar os originais de Cem anos de solidão para serem publicados em Buenos Aires. Ainda bem!

Gabriel García Márquez (1927-2014)

Gabriel García Márquez (1927-2014)

Pois pensem bem como seria o mundo (velho, novo; todo ele) sem a obra de Gabriel García Márquez… Pensem bem o que seria de nós, latino-americanos, sem a leitura precisa – ainda que mágica –  que Gabo fez de nós mesmos… Pensem bem o que seria de nós, sem a magia de nossa realidade expressa em palavras… Pensem bem como será daqui por diante… Pensem bem. Poucos conseguiram compreender tão bem a América Latina como Gabo, e todo aquele que desconfiar do que estou dizendo deve ler, por exemplo, Eu não vim fazer um discurso, um dos livros mais incríveis que já li…

Já fazia algum tempo que Gabo não se dava conta… Teve quem disse que sua “demência senil” fosse coisa da idade… Eu já acho que ele findou a capacidade de dar-se conta antes de findar sua crônica vivida. Há quem diga que, na verdade, sua morte pouco muda as coisas,  afinal, já fazia 10 anos desde o lançamento de seu último livro e mais ou menos dois desde que foi anunciado que ele não escreveria mais. Ora, acaso deixamos de lado o que já conhecemos? Acaso conseguimos abrir mão daquilo que nos cativa, simplesmente porque não funciona mais? Acaso é fácil despedir-se de quem admiramos? Não, não é.

Assim que saber que caminhamos para a morte desde o momento em que nascemos não muda o fato de que vivemos, quase sempre sem pensar na morte. Vivemos porque só em vida podemos nos dar conta e só em vida podemos fazer com que nossa vida não seja esquecida depois de nossa morte. E assim fez, Gabriel García Márquez, cuja obra permanece, inigualável e insubstituível. E ainda assim não é fácil dizer adeus. Pois bem, não é fácil, mas é inevitável. Porque toda vida é uma crônica e toda morte é anunciada.

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Ps.: E para além de tudo isso, eu sempre achei que um dia ia topar com ele e poder dizer o quanto os livros dele mudaram a mim, à minha relação com a história, à minha relação com a vida. É sempre triste dizer adeus!

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