–> Dia de eleição

De tanta paranoia sonhou que não conseguia votar. Acordou angustiada, olhou no relógio e alegrou-se; eram nove horas, a eleição acabara de começar. Levantou-se, vestiu-se e nem tomou café: “Quanto mais cedo, melhor!”. Vestido vermelho com casaco de corações só pelo lúdico (e também pela necessidade individual de se contrapor à maré verde e amarela conservadora com a qual tinha certeza de que ia cruzar). Posicionou os adesivos e o bóton estrategicamente, não sabe muito bem que efeito eles provocam nas pessoas, mas acha importante mostrar para quem quiser ver quais são suas opções políticas. Batom vermelho.

O trajeto não é longo nem difícil. Pela quarta vez desde que se formou, volta ao colégio onde estudou, sobe pelas escadas (mais gente com quem trombar pelo caminho) e chega à sua seção, que não tem fila. As mesárias e mesários a olham como se fosse um ET, conferindo seu rosto e os adesivos colados em sua roupa como se fossem um crachá. Julgam-na. Ela não esta nem aí. Com todos os cinco números decorados dirige-se à cabine, de onde sai menos de 10 segundos depois. Recebe seus documentos e volta pelo mesmo caminho por onde veio, lamentando ter digitado tão rápido. Tem um certo apego por esse ritual eleitoral, mas o ar do ambiente é tão pesado que só quer sair de lá o mais rápido possível.

Na saída encontra um grande amigo que não via há muito tempo. A conversa flui naturalmente e durante todos os muitos minutos em que se falavam, passou de quase tudo pelo saguão do colégio: famílias sorridentes nas quais a pátria amada parecia ter vomitado; gente com adesivo de moço bem apessoado e atolado até o topete em corrupção; senhores aparentemente respeitáveis com adesivo de candidato cuja candidatura quase foi impugnada pela lei da Ficha Limpa; moças marinando. Indigna-se com pais e mães que vestem seus filhos e filhas pequenas com a sua opção política. “Que sabe do PSDB uma criança de seis anos com um adesivo do seu candidato majoritário?” Pior: “quão desonesto é vestir no seu filho a camiseta amarela do time do coração e um casaco verde da seleção, se aproveitando da paixão esportiva para inseri-lo numa campanha política (bem ridícula, por sinal)?”.

Despediu-se do amigo e rumou para casa, também pelo mesmo caminho por onde havia vindo. De cabeça erguida encarava a todos e todas que a olhavam indignadas, como se não entendessem alguém com aquela posição política num bairro tão metido a babaca diferenciado. Até que, grata surpresa, quando já subia as escadas para entrar em casa, foi abordada por uma mulher de meia idade que lhe disse: “Moça, desculpe, mas vi seus adesivos e não resisti… Também voto na Luciana. Que bom saber que tem mais gente aqui que vota nela.” Sorriram.

Entrou em casa e, sem tirar a roupa ou os adesivos, ligou o computador. Escreveu essa crônica.

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