–> Uma história de loucura (Une histoire de fou), 2015

O filme de produção francesa e direção armênia, de Robert Guédiguian,  se passe em três momentos do século XX. O primeiro se passa no ano de 1921, com o assassinato de Tallat Pacha, um dos responsáveis pelo genocídio armênio (promovido pelos turcos em 1915), enquanto este vivia em Berlim e o julgamento que a essa ação se seguiu, terminando com a absolvição de Soghomon Thelirian, único integrante de sua família sobrevivente ao massacre.  O segundo momento é também o mais longo em termos fílmicos e se passa nos primeiros anos da década de 1980 e se centra na trajetória de Aram, um jovem francês de origem armênia que, após explodir o carro do embaixador turco, deixa tudo para trás e se muda para Beirute a fim de se engajar na guerrilha armada que lutava pela reparação territorial da Armênia e pelo reconhecimento oficial do genocídio pelo Estado turco. O terceiro momento é breve, quando a mãe de Aram retorna à agora nova Armênia para enterrar as cinzas de sua mãe, que até ó último momento de sua vida desejava voltar para casa.

Apesar de cumprir uma função interessante – e necessária – de divulgar mundialmente o caso do genocídio armênio, ainda bastante desconhecido 111 anos depois, não me parece que ele de fato proponha uma discussão profunda do tema, seja sobre o acontecimento de fato, seja das ações que a ele se seguiram ao longo do século XX. Isso porque a construção dos personagens e das situações do início dos anos 1980 me lembrou bastante o filme O que é isso, companheiro? (1997), do brasileiro Burno Barreto. Em ambos os filmes o líder da luta armada é representado como um louco sádico e sanguinário que recruta jovens inocentes e sonhadores desavisados para a realização de ações indignas das quais o próprio líder não tem muita coragem de participar. Pouco tempo depois de ingressar na guerrilha armênia, Aram passa a questionar as ações do grupo, em razão das vítimas inocentes que elas causavam. As ressalvas de Aram se dão muito em função do fato de que sua primeira ação, a explosão do carro do embaixador turco, também resultou numa vítima inocente. 

Além disso, temos também um guerrilheiro mais velho – que não é o líder – que também parece se arrepender, passando a questionar até mesmo a tática armada e abandonando o grupo. Numa única cena este guerrilheiro mais velho discute com o líder da organização, o que temos é o reforço da ideia de que a luta armada é uma opção de jovens inconsequentes. Outro ponto de semelhança entre os filmes é a relação amorosa entre o guerrilheiro hesitante (Aram e Gabeira) e uma guerrilheira convicta (Anahit e Vera), o que acaba por confundir as atitudes de ambos e melodramatizando as convicções políticas e a representação dos guerrilheiros. 

Outro ponto relevante é que, como todo filme, Une histoire de fou apresenta uma discussão bastante ligada a seu tempo de produção, o que talvez sublime o aprofundamento da discussão do seu tempo de representação. A questão do terrorismo, da legitimidade de ações armadas e da denúncia contra situações de opressão é muito latente na França de hoje e me parece que o filme diz muito mais sobre essa discussão do que sobre o genocídio armênio e as lutas por reparação histórica dos armênios em si. O que não é um problema, apenas deve ser observado com atenção.

Assista ao trailer.

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Direção: Robert Guédiguian

Roteiro: Robert Guédiguian, Gilles Taurand

Elenco: Simon Abkarian, Arian Ascaride, Grégoire Leprince-Ringuet, Syrus Sahidi, Razane Jammal

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