–> Sobre “Jacqueline”(2016) e Rafael Gomes

Uma “trilogia de mulheres massacradas” é o que vi de Rafael Gomes entre 2015 e 2017. Trilogia essa composta pelas remontagens/releituras do clássico Um bonde chamado desejo (Tennessee Williams) e da potente Gota d’água (Chico Buarque e Paulo Pontes), e da estreia de seu texto autoral Jacqueline. Em que pesem as questões que particularizam cada uma delas, desde já eu digo: Gomes é dos melhores diretores teatrais da atualidade. Sua direção crítica, dinâmica e que, invariavelmente, potencializa o texto, se soma ao sábio diálogo com o espaço em que as montagens tomarão corpo. Cercando-se de uma equipe igualmente competente, o jovem diretor levou aos palcos duas peças bastante marcantes – as releituras – e uma terceira que tem problemas, mas ainda assim revela a busca por uma dramaturgia preocupada em pensar e dialogar com seu tempo.

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Foto do site: levaumcasaquinho.blogspot.com.br

O cenógrafo André Cortez e o iluminador Wagner Antônio têm trabalhos magistrais. O cenário do Bonde é das coisas mais incríveis que já vi, a melhor utilização do Tucarena que já presenciei, e ajudou a fazer da montagem um dos grandes sucessos da temporada 2015. Na versão “redux” de Gota d’água, os andaimes em movimento remetem à multiplicidade de sets que organizou a montagem original do texto (1975), adaptando-a à redução de personagens sem abandonar a proposta de dinamização da cena que objetivavam os autores. Sobre Jacqueline, ouso dizer que o cenário ajuda a “salvar” a montagem, conferindo a ela um ritmo que o texto não tem.

No mesmo sentido, a iluminação de Antônio busca não só a dinâmica das montagens como demarca passagens de espaço e tempo, situando o espectador no desenrolar da ação sem, no entanto, vetar-lhe o acesso aos “bastidores” do teatro: é possível observar mudanças no cenário, trocas de figurino, reposicionamento dos atores… O mundo por trás da coxia. A meu ver, isso só engrandece uma montagem, descortinando o teatro sem abrir mão completamente do seu pacto de realidade, mas sim, refinando-o. Lembrando sempre o próprio Brecht: todo teatro bom é entretenimento.

Se sobre Um bonde chamado desejo e Gota d’água [a seco] não tenho nada a acrescentar além da recomendação “Se puderem, assistam!!!”, ainda é preciso falar sobre Jacqueline. E é inevitável para mim pensá-la sem tomar as outras duas como matriz de comparação. Não só porque elas acabam por compor uma trilogia, mas também porque vi o Bonde e saí completamente mexida. Vi Gota e pensei: gente, que coisa maravilhosa! Cheguei pra ver Jacqueline com a expectativa no céu e não fui completamente contemplada. Creio que dois elementos foram fundamentais para isso: o texto arrastado e moroso e o elenco desigual.

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Foto do site: catracalivre.com.br

Como já falei, a dinâmica de Jacqueline fica toda nas costas da montagem/direção, favorecida pelo cenário e pelo jogo de luz, mas não se sobressai no texto. Talvez a busca pelo rompimento na fronteira entre teatro e concerto tenha feito do primeiro subsidiário do segundo e não o contrário, como (modestamente) acho que funcionaria melhor. Já no que tange ao elenco, as duplas acontecem de maneira desequilibrada. Se Arieta Corrêa e Fabrício Licursi, que interpretam a irmã e o cunhado da protagonista, conferem a seus personagens uma potência interessante, Daniel Costa – que interpreta o marido de Jacqueline – não se encaixa, assumiu um tom inadequado ao papel. Já Natália Lage, diferentemente de Maria Luisa Mendonça e Laila Garin – que protagonizaram, respectivamente, Bonde e Gota –  não sustenta sua personagem, não convence.

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Trecho do programa de Jacqueline.

Mas, apesar de tudo isso, Jacqueline é uma peça importante. Para o teatro e para o papel da arte na sociedade. Porque se propõe a repensar linguagens e espaços, se reinventar, e porque coloca em cena mais uma mulher que nos escancara a força que tem(mos). As três mulheres são massacradas sim, mas não em silêncio. Não se deixam massacrar sem resistência, sem o esbravejar próprio de quem tem suas forças repetidamente sugadas pela sociedade em que vive. E, apesar de quererem chamá-las loucas/surtadas (arma mais baixa e covarde de autorreprodução dessa sociedade misógina), Blanche, Joana e Jacqueline expressam lucidez em cada grito, em cada palavra, em cada lágrima.

A temporada de Jacqueline no Teatro Anchieta do SESC Consolação se encerra no próximo dia 29. Yo que vos, iria.

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Foto do site: deolhonacena.com.br

 

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