–> Entre os muros do museu

Depois de muitas vindas ao Rio de Janeiro e vários desencontros, finalmente consegui visitar o Museu da República. Quis a vida que eu o fizesse na véspera do 9 de julho, feriado no estado de São Paulo por conta da Revolução Constitucionalista de 1932, quando paulistas se levantaram contra o governo provisório comandado por Getúlio Vargas, instaurado cerca de dois anos antes. Não sei se minha impressão seria diferente caso visitasse o museu em outra data, mas a proximidade do 9 de julho foi providencial.

Getúlio Bossa Nova

Getúlio Bossa Nova

Desde setembro do ano passado, quando o suicídio de Getúlio completou 60 anos e um mês, o Palácio do Catete abriga uma exposição temporária em sua homenagem, intitulada “Saio da vida para entrar na memória”, que permite aos visitantes ver os itens mais famosos do acervo do museu – o pijama, a arma e a bala usados por Vargas para se matar – enquanto o terceiro pavimento, onde se localiza o quarto do ex-presidente, está fechado para reforma. A narrativa expositiva segue a mesma linha que se apresenta na exposição permanente do museu: uma exaltação desmedida a uma das figuras mais emblemáticas e também complexas da história do Brasil. Ainda que não se furte em fazer menções ao seu governo ditatorial, o que predomina sobre Getúlio é uma imagem positiva, que nos sugere que ele é o verdadeiro presidente Bossa Nova e não JK.

Getúlio na canção popular: entre a crítica e a contemplação

Getúlio na canção popular: entre a crítica e a exaltação

A expografia do museu é bem tradicional: fotos, documentos, linha do tempo e textos, muitos textos, que ornam com a história oficial ali reforçada. Já a da exposição é bem mais interessante. Embora o pano de fundo seja a mesma história oficial feita por grandes nomes e enfatizadora de clichês históricos, a disposição das salas é dinâmica, colorida e alegre, o que, na prática, serve justamente para reforçar a imagem de um Getúlio simpático e amado pelo povo.

Memória do pijama

Memória do pijama

O desprendimento é tanto que alguém teve a ideia de disponibilizar um daqueles totens (ou sei lá como se chamam essas coisas) para visitantes posicionarem a cabeça e tirarem foto. Não teria tanto problema se o corpo dele fosse qualquer outro que não uma reprodução do pijama com o qual Getúlio se matou. Sério, quem teve essa ideia de extremo mau gosto? E quem tira foto com o pijama do morto? Muita gente, aposto. Aliás, o mau gosto macabro da exposição não para por aí, mas é coroado com a máscara mortuária de Getúlio. Gente, qual a necessidade?

Eu, hein?!!!!

Eu, hein?!!!!

Já mais ao final, uma parede nos mostra imagens do Google Maps das inúmeras ruas, avenidas e afins que levam o nome de Vargas Brasil afora. Lembrei-me que em São Paulo não tem avenida ou rua Getúlio Vargas, tem Avenida Nove de Julho. A gente sabe, mas não custa lembrar, que o silêncio paulista sobre Gegê não se dá por sermos menos fascistóides que ele, mas por motivos de disputa pelo poder e manutenção e deslocamento de privilégios já apontados por mim aqui.

O balanço final da exposição é curioso e sintomático: o grande exaltado do nosso Museu da República é Getúlio Vargas, figura complexa, sem dúvida, mas, antes de tudo um ditador e militar. E ter um ditador nessa posição diz muito sobre a história de nossa república carente de justiça social e democracia. De fato, o Brasil não é para principiantes.

Os objetos mais famosos do acervo do museu

Os objetos mais famosos do acervo do museu

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–> Na esquina olhando, com os pés molhados

“A vida tinha sido isso, trens que partiam, levando e trazendo pessoas, enquanto a gente ficava na esquina com os pés molhados, ouvindo um piano mecânico e gargalhadas, tamborilando com os dedos nas vitrinas amarelecidas do bar, onde nem sempre se tinha dinheiro para entrar.” 
Julio Cortázar, em O jogo da amarelinha.

Dos encontros tantos de nossas vidas fazemos a colcha de retalhos com a qual nos cercamos dia após dia. Os desencontros que se interpõem quase sempre deixam as marcas com as quais costuramos lembrança por lembrança, momento por momento, estilhaço por estilhaço. Os reencontros, por vezes também frequentes, trazem retalhos sobrepostos que, de camada em camada, tornam mais densa nossa colcha da memória.

Cada um que parte nos deixa um pouco de si e leva um pouco de nós; fazemos a colcha nossa e as dos outros. Quando muito doi o adeus, o frio nos toma conta, os pés ficam como molhados, olhar e pensamento distantes. A saudade nos gela por dentro e então recuperamos nossa colcha que nos aconchega como o abraço de quem se foi.

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–> Algum lugar belo (Somewhere beautiful), 2014

Sobre a incompatibilidade que nos impede de dividir todo o tempo que temos com quem queremos. Sobre as escolhas impossíveis que precisamos fazer. Sobre a dor e a delícia de sermos quem somos. Sobre estar separado quando se está junto; sobre estar junto mesmo quando a distância se impõe. Sobre as belezas que nos encobrem; sobre partilhar a beleza; sobre sermos a beleza.*

Algum lugar bel

Diretor: Albert Kodagolian

Fotografia: Albert Kodagolian

Montagem: Robin Gonzalves, Damion Clayton, Joe Parsons

País: Argentina, EUA

*Reflexão escrita após uma das sessões do filme na 38ª Mostra Internacional de São Paulo.

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