Os números de 2014

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2014 deste blog.

Aqui está um resumo:

Um bonde de São Francisco leva 60 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 2.200 vezes em 2014. Se fosse um bonde, eram precisas 37 viagens para as transportar.

Clique aqui para ver o relatório completo

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–> Dia de eleição

De tanta paranoia sonhou que não conseguia votar. Acordou angustiada, olhou no relógio e alegrou-se; eram nove horas, a eleição acabara de começar. Levantou-se, vestiu-se e nem tomou café: “Quanto mais cedo, melhor!”. Vestido vermelho com casaco de corações só pelo lúdico (e também pela necessidade individual de se contrapor à maré verde e amarela conservadora com a qual tinha certeza de que ia cruzar). Posicionou os adesivos e o bóton estrategicamente, não sabe muito bem que efeito eles provocam nas pessoas, mas acha importante mostrar para quem quiser ver quais são suas opções políticas. Batom vermelho.

O trajeto não é longo nem difícil. Pela quarta vez desde que se formou, volta ao colégio onde estudou, sobe pelas escadas (mais gente com quem trombar pelo caminho) e chega à sua seção, que não tem fila. As mesárias e mesários a olham como se fosse um ET, conferindo seu rosto e os adesivos colados em sua roupa como se fossem um crachá. Julgam-na. Ela não esta nem aí. Com todos os cinco números decorados dirige-se à cabine, de onde sai menos de 10 segundos depois. Recebe seus documentos e volta pelo mesmo caminho por onde veio, lamentando ter digitado tão rápido. Tem um certo apego por esse ritual eleitoral, mas o ar do ambiente é tão pesado que só quer sair de lá o mais rápido possível.

Na saída encontra um grande amigo que não via há muito tempo. A conversa flui naturalmente e durante todos os muitos minutos em que se falavam, passou de quase tudo pelo saguão do colégio: famílias sorridentes nas quais a pátria amada parecia ter vomitado; gente com adesivo de moço bem apessoado e atolado até o topete em corrupção; senhores aparentemente respeitáveis com adesivo de candidato cuja candidatura quase foi impugnada pela lei da Ficha Limpa; moças marinando. Indigna-se com pais e mães que vestem seus filhos e filhas pequenas com a sua opção política. “Que sabe do PSDB uma criança de seis anos com um adesivo do seu candidato majoritário?” Pior: “quão desonesto é vestir no seu filho a camiseta amarela do time do coração e um casaco verde da seleção, se aproveitando da paixão esportiva para inseri-lo numa campanha política (bem ridícula, por sinal)?”.

Despediu-se do amigo e rumou para casa, também pelo mesmo caminho por onde havia vindo. De cabeça erguida encarava a todos e todas que a olhavam indignadas, como se não entendessem alguém com aquela posição política num bairro tão metido a babaca diferenciado. Até que, grata surpresa, quando já subia as escadas para entrar em casa, foi abordada por uma mulher de meia idade que lhe disse: “Moça, desculpe, mas vi seus adesivos e não resisti… Também voto na Luciana. Que bom saber que tem mais gente aqui que vota nela.” Sorriram.

Entrou em casa e, sem tirar a roupa ou os adesivos, ligou o computador. Escreveu essa crônica.

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–> O 11 de setembro chileno

Pouco antes do primeiro aniversário do 11 de setembro estadunidense foi produzido um longa-metragem composto de 11 curtas realizados por diferentes diretores, de diferentes países e com diferentes experiências. Lançado no Brasil com o título 11 de setembro, o filme apresenta diferentes visões e opiniões sobre um dos grandes fatos históricos do início do século XXI. Mas hoje não falarei dele. Hoje eu falarei de outro 11 de setembro, o 11 de setembro chileno.

Um dos curtas que compõe 11 de setembro foi realizado pelo inglês Ken Loach  e recupera o golpe de Estado que derrubou o presidente chileno Salvador Allende e instaurou a assassina e sanguinária ditadura militar naquele país, que mataria 30 mil pessoas e exilaria tantas outras. Em pouco mais de 10 minutos, nos é apresentado o papel que os EUA tiveram na desestabilização econômica e social do Chile, visando impedir que um governo de esquerda se firmasse na (eternamente em disputa) América Latina.

O curta apresenta um homem chileno, Pablo, que foi preso e exilado pelo regime de Pinochet e desde então vive na Inglaterra. Ele escreve uma carta aos parentes e amigos das vítimas do 11/set/2001, através da qual narra os acontecimentos em seu país e as angústias que marcam sua vida (e a de tantas outras pessoas, certamente) desde então. É difícil apontar um momento mais interessante no curta, cuja construção é toda inteligentíssima, mas acho que o uso de um trecho da fala de George W. Bush sobre o 11/set/2001 para mostrar o envolvimento verdadeiramente terrorista dos EUA no 11/set/1973 é um ponto alto. Sobretudo porque desconstroi sutilmente, mas nem tanto, a imagem dos Estados Unidos como o grande baluarte da democracia e da liberdade e afirmar a hipocrisia dos governos desse país.

A carta de Pablo é marcada pela angústia de quem viveu experiências traumáticas e termina com um apelo: “Mães, pais e entes queridos dos que morreram em Nova Iorque logo chegará o 29ª aniversário de nossa terça-feira, 11 de setembro, e o primeiro aniversário da sua. Vamos nos lembrar de vocês. Espero que vocês se lembrem de nós.”

Aqui estamos lembrando.

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